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Já se ouve ao fundo do corredor a balada que traz ao colo o brilho daqueles olhos resplandecentes. Dando um passo conseguimos descobrir sentimentos encarnados, um arrepio no sorriso, o sapato parece que se desaperta e acorda aquela música que tão quentes palavras dita.
Aqui ao lado já se ouve o piano - aquele piano. Enquanto canta, conta histórias. Até esta hora a melancolia era capaz de sugar todas as cores que o observavam, mas chegou agora a altura de abrir as cortinas e gritar ao mundo aquilo que tão feito de vermelho se guardava. Não vale a pena guardar-se dúvidas, de nada vale cantar uma música sem a ouvir ao fundo. Eu ouço-a e tenho-a cantado todos os dias, apenas com um retoque naquele acorde que me faz prometer tanto a todos os pés que me seguram. São muitos.

Não me interessa o chão, o céu, o tempo ou a forma como me enxergam, tenho-te a ti. É como aquelas fitas de seda que se deixam voar por aí até encontrarem um ponto que lhes faz bem, que as agarra e amacia como nunca pensaram ser possível. A sensação é-lhes impossível de descrever, é uma coisa estranha que dá comichões às borboletas que se acham rainhas desse pedaço vermelho que carregamos ao peito. Venha aquela comichão, venha a chuva ou a saudade que mata, o tamanho cura tudo e o tempo encolhe, e tu? És gigante.
às vezes há coisas que nos transcendem e são convenientes o suficiente para se apoderarem de nós, mesmo que tenhamos deixado uma passagem oculta por muito tempo. fazem-no sem deixar recado, num limitado espaço de tempo, com o coração nas mãos e uma lágrima no canto do olho. há coisas que aparecem quando as mãos se recusam a receber e no momento em que menos dávamos por elas, que acordam uma parte de nós e a aquecem de forma única. há coisas que crescem mesmo em dias chuvosos que procuram o sol, mesmo que tudo em volta esteja contra. há coisas que nos dão permissão a um sorriso que guardávamos para a sua chegada. há coisas que simplesmente são coisas nada simples.

Tudo começa por uma linha que ainda não conheces ao certo. Não sabes onde vai, quem leva à sua frente e quem carrega às costas. Após te acenarem e te contarem um segredo desmedido e inimaginável, sorris e, sem pensar duas vezes, aproveitas a dobrar a sensação de ver algo tão brilhante e grandioso. Vês almas perdidas passarem à tua frente, nadarem sem qualquer afogo, nus de preconceitos e, ao enxergares, apercebes-te do tamanho que algo escuro traz consigo, a impaciência com que passa por ti e a forma como foge até ao mundo onde já não apareces. O claro chegou e fica para te atormentar e para te dar ordens às quais nunca pensaste não te opor. A melhor opção? Levantar os braços como o precioso fez e olhá-los de lado, sem pensar o que podem achar de ti, sem olhar a prejuízos ou superstições. Limita-te a deixá-los partir, navegarem até esse mundo desconhecido; quando se esquecerem do que são, do que trouxeram, do que deixaram para trás, vão voltar atrás e repetir outra vez, e outra vez, e outra vez.
é uma incapacidade inata, explicar as coisas que não temos nas mãos, aquelas que vemos com os olhos, que cheiramos igualmente com o olhar. aquelas que,  ainda nos trazendo más memórias, conseguem ser potentes à vista do nosso coração e fazer com que ele soe mais alto que aquele meloso abrigo. sente-se uma enorme marca no caminho confuso que é o regresso... nasce a vontade de cravar palavras nessas ruas regadas de ouro, cantá-las uma a uma, ouvir o hino de cada história gravada na parede e planear atalhos inconscientemente.

esse dia vai ser meu.
As vestes envidraçadas viraram agora cinzas nessa cadeira consumida por olhares indiscretos. Depois de gastos uma e outra vez, os ouvidos já não correm e pararam para dar atenção ao lar, ao toque, ao aroma das roupas lavadas, do chão molhado e da mala por abrir. Quer-se um mundo, uma estrada, uma viagem sem destino, um marco para a vida inteira. Esse vai fazer com que o nariz corra sem pés, nade sem mãos, vai permitir que um mar de ideias, de recordações e de correrias desiguais fujam e parem num fresco recomeço. Desta vez não há solidão, não há espaços vazios, não há pontos finais; há milhares de vírgulas e de correrias descontroladas até ao fim das frases nascidas no fim dos nossos tempos.
Deixa-te de coisas. Deixa-te consumir pela monotonia da vida, pelos olhos verdes, pelos fumos indecisos, pelas telhas desprezadas e pelas casas condenadas. Deixa-me jurar-te que um dia vais ter os pés embrulhados nesse papel escabroso e que vais estar seguro ao chão que sempre viste de longe. A vida é um dia, o sol enfraquece na metade e as luzes apagam-se quando o que ideavas ser não está contigo. Morres quando o rosto se macula, sentes quando o coração se castiga e o lume se apaga. O verniz acabou e o vermelho desapareceu, a pele domina-te a hesitação e apercebes-te que és o que querias ser mas não tens o que querias ter.

Ninguém é quem queria ser, eu queria ser ninguém.
It was one of those days when it's a minute away from snowing and there's this electricity in the air, you can almost hear it. And this bag was, like, dancing with me. Like a little kid begging me to play with it. For fifteen minutes. And that's the day I knew there was this entire life behind things, and... this incredibly benevolent force, that wanted me to know there was no reason to be afraid, ever. Video's a poor excuse, I know. But it helps me remember... and I need to remember... Sometimes there's so much beauty in the world I feel like I can't take it, like my heart's going to cave in."

American Beauty

Há tanta vida atrás do real e do que apenas vemos com os olhos. A beleza está na importância que dão a cada visão; quando é clara a verdadeira excelência das coisas, dão por eles completamente engolidos por essa luz. O olhar e o sorriso embalado e protegido que aquela criança me transmite sem saber quem e o que sou mostram que é possível ser-se feliz sem saber, todos eles são felizes sem saber, são infelizes apenas nas palavras que deitam no ar doente que os rodeia. A vida está cheia de desavenças e de tons bem escuros que só lá estão para que eles próprios sejam capazes de ultrapassar velhos e maus tempos e de ver o que realmente há para ser aproveitado: amor, sorrisos, olhares, paladares, e dentro de cada uma dessas sensações há quilómetros de beleza à espera de corpos e mentalidades capazes de a alcançar. Cada passo na perfeição é uma batalha ganha para ser conseguido o simples toque da vida.


palavras duras como pedras que furam e arrancam pontos à cara de um sem-abrigo. a jarra verde, que estava pousada na mesa condecorada por ele, está agora deitada no chão, divida entre si mesma, entre o esquerdo e o direito, não sabe se sim ou se não. quer muito decidir, mas, quando olha para aquele abajur rasgado por vozes grossas e duras, sente-se confortado com aquilo que é, obriga-se a aprender a esperar, a deixar que o vento ande por si mesmo, que a luz se guie a si própria e que os mares, como dizem nas histórias de encantar, não têm fim. quando alguém chega, a esperança de ser salva cresce, cresce até ao ponto de se conseguir levantar e arrancar palavras assustadas desses que pensam ser os reis do mundo. quer muito ser como eles, gostava de conseguir falar mesmo quando assustada, mas de que nos serve querer ser como os outros se sempre vamos ser como nós? assustados.
apetece-me beber uma garrafa de céu e voar por entre os ramos da relva, esses que se apoderam do sabor verde da vida. apetece-me varrer todos os pontos finais, engolir todos os suspiros, correr atrás de caras feias, sonhar com o vôo que ganhei no outro dia, agarrar bolas anti-stress e fazê-las explodir; apetece-me tanto voar, subir alto, descer baixo e seguir sempre na diagonal direita, nessa que, sem saber, é a mais importante, a que me conta mais segredos todas as manhãs, a que me deixa sorrir ou chorar o tempo que eu quiser ou precisar. emoções fazem bem, voar faz bem, voar faz mesmo mesmo bem. queria tanto ir para longe hoje, para longe do chão e da terra. um dia ...

sorrisos espelhados no chão por onde pés descalços passaram. um sorriso transporta tanta energia e tanto alento, deixa-te levar por ele que acabas num rio de lágrimas alegres, numa chama quente e dilacerosa, numa cama sugada por ti mesmo. deixa que a maré te leve, que os sons te transportem para o seu mundo e, assim, vais conseguir nunca atingir a palavra dúvida; porque dúvidas é o que queres longe agora. bem perto só queres mesmo o calor amigo ou as palavras que ficaram por dizer, aquelas em que pensaste mas decidiste guardar só para ti, só para aqueles que te acompanham nas pontas dos dedos, aqueles que sorriem desde da cabeça aos pés. deixa-te levar pela acriançada música e sorri.

são como sombras que invadem casas destroçadas por vozes inequietas; todos os pontos finais se converteram em exclamações e todas as exclamações ficam à porta, sem entrada prevista. não tentes correr, o tempo resolve tudo, prometo. prometo conseguir devolver-te a Vida e fazer com tudo torne a ter rosas no final, fazer com que a estrada seja mais curta e que os passageiros sejam corajosos, tenham bravura ao seu lado e consigam lutar pelas cores e sabores por que tanto anseias. prometo cantar-te a tua música favorita e cozinhar-te os pratos que mais gostas. deixa-me só abrir a porta e sussurrar as palavras que nos distinguem. se sabes que os teus dedos conseguem escrever longas e belas baladas porque tens medo? tenta fazer com que um sorriso teu faça milhares de vozes falarem. sei que tudo pode ter um fim, que as histórias podem ser negras e que os teus reflexos podem transformar-se em frases inacabadas, mas porque não arriscar? a vida é isso, arriscar.

Se pudesse roubava todas as rosas do mundo. Pintava o céu de verde e o alcatrão virava amarelo. Era ridículo, verdade, mas era pintado por mim. Era eu quem governava o mundo das cores que tanto amo e faço por tornar repetitivo. Dava ainda mais para poder trazer a brisa marinha segundo sim, segundo não. Se quisesse chegar a um lugar, tinha de passar por cima da relva amarela e sempre que voasse tocava no céu verde. Um sonho foi assim, agora vou tratar de arranjar os pincéis e os doces e humildes guaches (...).

Essa casa existe. Passei por ela e logo percebi o significado da palavra energia. O pó tem energia, é ele que aquece a madeira fria, o soalho gelado e os painéis de solidão. Essa casa foi construída para eles - os encarnados rostos que pisam a areia esfomeada. Os copos pousados na velha mesa demonstram os sentimentos já maduros que por ali passaram. Nas botas arroxeadas vi sorrisos, neve e rebuscadas palavras que embelezaram a divisão amorosa do coração. Senti um arrepio que desceu as costas e que quand chegou aos pés me obrigou a dar um passo até ao passado e a recordar as sementes que colhi.

Jogam aos pares, acarinham-se umas às outras e jogam da mesma maneira, sempre de mãos dadas e sorrisos deixados. O caminho delas, por muito simples que pareça, é longo, muito muito longo. Mas nós, pessoas, não lhes damos o devido valor, preferimos enxota-las, deitá-las ao chão, sacudi-las do ombro e, por vezes, ainda dizemos que as odiamos. Se encararmos a realidade, vemos de quão longe vêm e o tanto que percorrem, o tanto que merecem ser ouvidas e observadas.
Por momentos, deixei-me embalar pela sua linguagem e forma de andar e acabei por me envolver nos seus passos, nas suas cores, na sua cumplicidade e companheirismo. Uma percorre um caminho, outra um diferente, mas quando se encontram, unem-se para correr em uníssono. Adquirem a cor do céu, o cheiro da lua, o andar de um pássaro e o som do vento. Se pudesse, agora, corria a seu lado e mergulhava com elas nesse mundo de comodidades e formas nunca antes experimentadas. Quando puder irei fazê-lo de novo, prometo.
Numa rua onde param o branco e o azul, à minha janela vejo um excessivo vermelho. Vejo-o nos lábios, nos anúncios, nas paredes e até mesmo, ali no fundo, naqueles sapatos. Consigo caracterizar cada tom desta cor. É garrida, forte, dolorosa ao toque e suave ao olhar. Não peço, juro que não peço mais nada senão poder tocar-lhe, sentir a sua dor, a sua chama, a sua robustez. É engraçada a forma como passa do rosado para o vermelhão - são as emoções, essas que trabalham dia e noite para se fazerem notar. Uma vez, uma disse-me ser a rainha de todas as outras. Julguei estar mentindo, até ao momento em que a senti dentro de mim, estava vermelha; cantava tão alto que acordou, dentro do castelo das sensações, o azul, o amarelo, o laranja, todos os tons fáceis de ouvir. Cada um de nós tenta agarrar a sensibilidade que mais lhe apetece, e apesar dessa rua ser branca e azul, eu pintei-a de vermelho. Quando chover, abraçar-me-ei aos meus olhos e pintarei de novo.
Nunca as tinha sentido voar na minha barriga, essas que têm brilho nas asas, rosas na boca e sonhos nas patas. Para elas não existe céu, não há um limite e, por agora, as suas asas batem incondicionalmente. Se um dia cessarem, juro correr até ao fim do mundo para recuperar e ressuscitar a sua pura beleza, o seu sorriso colorido e irei mergulhar de novo nesta casa que as pedras do rio construíram e onde a energia, a saudade e a consciente inconsciência duram. Agora, espalho a minha confiança sobre as folhas que nunca deitadas irão ficar, que corrompem todas as leis da natureza e se erguem por si mesmas até um labirinto ser formado dentro de mim. Esta borboleta não é rigorosa, é livre, louca e irracional, porque é disso que ele se trata.
«As chamas trinco, no gelo ardido, são formas muitas de te amar.»

another day, just believe, just breathe

disse um sim que durará para sempre e que, mesmo oculto, estará pendurado nas folhas que mandei trazer de Itália. as jarras, a cadeira onde te sentaste, o espelho que se partiu, tudo isso são pormenores ao lado das rosas que trinquei e dos ossos que vendi por ti, para puder tratar-me por mais um segundo. sinto que é doença o que trago, que não tenho as ferramentas necessárias para mandar construir o sonho dilacerado por cobras e lagartos despidos de vergonha. se me deixares apontar mais dois pontos nessa mão delicada prometo cantar-te as mais suaves canções e gritar-te as palavras mais fortes e seguras.

minha criança

Um tapete colorido, invadido por traços de emoções que se resumem à inconsciência tocada de duas crianças. Emerge uma cor de cada vez, sem serem criados padrões ou caminhos. Um beijo e um abraço chegam, uma história encantada ou uma simples música de embalar. A sensação toma um atalho acolhedor e um ingénuo arco-íris origina milhares de sorrisos simples mas sentidos. Os sons resumem-se a palavras geradas por emoções vivas, inicialmente retraídas, que lhes tomam conta do corpo e do coração e que transformam toda a seriedade exigida pelo mundo em doces lágrimas bêbedas de alegria. É bom poder sentir essa “felicidade inconsciente”, uma felicidade espontânea e incondicional, que aparece quando menos esperamos e nos tornam pessoas mais preenchidas.

ponto de luz

Quando ao mundo nada sobra, quando apenas a remanescente força do cansaço conquista o meu corpo, existe um ponto de luz que germina, cresce e se senta dentro de mim. A alma aquece e o coração ganha uma enorme vontade de correr até às areias de África. Quando vejo essas imagens embaladas numa música tão suave e delicada, os meus braços ganham cor, os olhos fecham-se, os ombros correm de um lado para o outro e os pés divulgam-se como estando imóveis. É uma viagem que me conduz até a um balão onde os olhos brilham de esperança e os passos são mais abundantes, onde o sorriso é escasso e a concentração foge por entre os dedos. A claridade constante faz-me perceber que estou fora de mim, dentro de um raio resplandecente e carregado de confiança.
expectativas desmoronadas e dilaceradas por olhos que não chegaram a abrir, corações que se fecharam a si mesmos, que negaram todas as palavras do Mundo, por acharem que só e para sempre pertenciam a um e a uma. mostrando que vão aguentar, que conseguem chegar ao fundo do túnel, caem. as forças são mortas pelo sentimento peculiar que acarreta um conjunto de acções manifestadas inconscientemente. todos os sons provenientes dessa sensação de mau-estar, de fraqueza e choro se multiplicam até chegarem ao seu próprio auge e serem obrigadas a mostrar-se ao mundo, a abrir a porta escura que as escondia, a derreter qualquer chão que as apoiasse e, finalmente, a aprenderem a aceitar dois lados. o coração é obrigado a criar prateleiras dentro de si, a construir compartimentos bem delimitados, obrigação essa que esmaga sentimentos e queima recordações.
Problemas de consciência, palavras que ficaram por dizer, por escrever, e pensamentos que ficaram presos às pedras por onde passei. Não me atormenta o que poderá vir, mas sim o que está agora, o movimento que faço com o nariz cada vez que penso e repenso. Se o som aumentar e diminuir aleatoriamente, tudo vai caber dentro das pequenas caixas que acompanham a bagagem que levo a meu lado. O sol desce, volta a subir, e o número dez soma-se a mais uns tantos. A única rede que aguenta o meu peso passa a ter doze espaços entre cada outro espaço, e o ponto de interrogação chega, chocado e perplexo com o que o seis lhe disse. Após um longo período de dúvida, o som é fechado e tudo aquilo que tinha dentro de mim, os sonhos, os pensamentos, o peso e a saúde, tudo desaparece e se transforma num simples ecrã exposto na montra de uma loja antiga, numa esquina das ruas de uma cidade esquinada. Apontarei o dedo ao ponto preto no espaço branco.
Pés que se tocaram, que rasgaram pedaços de sentimentos já destinados, escritos por um e por outro. Mãos que gritaram e sugaram tudo o que a liberdade dá e mais um pouco, cabeças que puxaram vagabundos das ruas de Lisboa e que desgarraram momentos às paredes. O que o tal senhor faz, o que o mundo nos leva a fazer, traz sujidade e nojo aos que olham e regalam de olhos fechados. Em vez de fugir, os sonhos permanecem para poder tirar maior partido do que têm dentro da aura de cada um. Enfrentam-no de armas em alta e caras estremecidas pelos sons que corrompem todos os bichos esfomeados. Palavras como extravagância ou requinte chegam agora queimadas através dos sorrisos oferecidos pelas estrelas que os viram, pelas nuvens que ficaram negras de enjoo. Ela agora usa o grizo como arma, e consegue sair com a vitória infiltrada no peito. Neste episódio não ouve música, o silêncio morou nestas palavras e mergulhou nos espaços que entre elas nasceram.
são a beleza que toma a palavra errada e o puro prazer mundano que deviam tomar conta de cada suspiro e preocupação. se correr uma estrada recheada de obstáculos te faz feliz, corre-a, mesmo que possas correr riscos, mesmo que chegues a morrer. corre, porque é esse momento que guardarás para sempre, que terá um significado incondicional. se pensares bem, cada preocupação que tens significa um abalo àquilo que devias ser, um atentado ao que ambicionas. larga pesadelos e olha para o que de belo tens ao teu lado, à tua frente e atrás de ti. tenta apanhar cada pedaço de beleza que conseguires e fá-lo até te sentires repleto de sonhos e ultrapassado por tudo o que te rodeia.

uma folha de papel que não pode ser escrita, que foi fechada a sete chaves, coberta por telhas antigas. se, se, se, odeio ses escritos. desci os três degraus que se aclaravam pelo céu que agora me cobria, cheguei ao chão e suspirei de alívio - cresci. não cresci em altura ou idade, os meus sentimentos cresceram do positivo para o negativo, diminuiram. senti essa chegada, sorri e aceitei como um pássaro aceita não poder cantar quando o bico se estraga. quando quis gritei, ouvi passos chegarem, cantei gargalhadas, senti arrependimento, caminhei uns minutos e, agora, voltava atrás. sim, voltava.

recordei a sentinela que me chamava em cada manhã cerrada que se erguia na vila. o cheiro a rosa nascida e o sabor da terra que se alugava às outras, fez-me calçar mais rápido e correr atrás dos pássaros que me deixavam segurar-lhes as pétalas e cobrir-lhes os olhos de sonhos. depois de conseguir subir a última escada, senti que era ali o meu espaço, onde podia expressar toda a liberdade a que o meu corpo me obriga a cada segundo que passa. sinto que naquela, a última, estavam todos os elementos que uso quando escrevo, quando leio ou medito. ali me sentei, e agora escrevo com as marcas de um sonho que não existiu.
é estar parada e voar também. gostava mesmo de conseguir estar, agora, que escrevo, de olhos fechados. para poder transmitir melhor cada sensação. vou fazê-lo, quero erros hoje. regressando às penas e às folhas, colocando-me na vida e na segurança delas, sinto que voo e que nego qualquer tipo de dor. sabe bem estar assim, viver assim. sei que o dia chegará, todos os anos chega, todos os anos perdura mais do que um minuto. este ano, que tem um só segundo, quero voar e sentir a nuvem mais aroxeada que alguma vez pôde existir. se me negarem ou mandarem parar, continuarei. quem julga saber tudo do céu, não sabe metade se não correr assim, com penas nos pés e folhas nos olhos. sabe tão bem, essa coisa de voar. deixas-me? eu prometo que são só mais uns instantes, só hoje, agora, neste segundo. prometido.

hoje é o dia em que vamos sair com uma cor permanente, forte e azul. vamos subir cada escada do arco-íris, amar cada amante e correr atrás de todos os pirilampos que decidirem seguir-nos, que tentarem agarrar-nos as pontas dos dedos dos pés. prometo que te darei a tal pétala, o tal sonho e essa mesma história. não sei quem és, para quem falo, mas tens estado aí e senti necessidade de te oferecer estas palavras, de te dar a conhecer as pontas dos meus dedos, o meu sorriso parvo e, mais, quero que toques naquela palavra de que falámos - diz por favor. não é feio implorar, eu sou feia e imploro. preciso de ti, ó alguém.
nunca gosto de ser clara no que escrevo, ele sabe disso. mas desta vez vou fugir ao que gosto e passar realmente o que senti quando li tanta admiração pelo que faço em tão poucas linhas, escritas por uma pessoa que me encoraja a fazer coisas diferentes e que sei que um dia terei coragem para poder errar ao fazer.
para começar, quando li o nome do meu blog no título senti-me deveras orgulhosa, uma vez que, normalmente, os títulos dele nunca são o principal do que escreve. depois, cada palavra que escreveu encorajou o regresso completo a este espaço. não sei porquê - falta de tempo é metade de uma desculpa - mas deixei de escrever tanto, de passar o que se resume a imagens para verdadeiras letras. no último post que cá tinha, de uma quarta-feira, de há muito tempo, fez um comentário a pedir indirectamente que escrevesse. e foi o que fiz, no preciso momento em que li o comentário - escrevi sobre o que nos últimos dias mais me faz pensar e mais me tem envolvido em mares de sinopses. soube-me bem e as saudades disto diminuiram.
voltarei a escrever.obrigado, Nuno R.

castelo branco

nada tem a ver com as nuvens que passam num dia de sol - essas passam, não deixam marca ou recordação. estou a falar do próprio sol que, em demasia, continua a saber bem, continua a deixar a sua marca, a sua palavra. foram muitos dias, muitos momentos que plantaram uma pequena flor em cada vaso que nada nos seus corações. guardo dentro de mim cada casamento, cada nó e cada desacato. limito-me a olhar para trás e a reviver ao pormenor os seus sorrisos, que alimentaram todos os dias em que acordei viva. quando acordei morta, fizeram de tudo para encher a minha pessoa de sorrisos e vivências que hoje guardo dentro de mim. amo-vos vida.

[desculpem não andar a comentar. apenas tenho lido, nem escrever para mim tenho conseguido]
Há palavras surreais que nos confrontam num certo momento, num dado espaço e com a raiva errada. Da mesma forma com que alguns esfregam papéis em caras desconhecidas, eu deito sentimentos para o chão. Faço-o com o maior cuidado que estiver ao meu alcance, luto por trazer a queda a mim; rezo por conseguir não voltar a criar mundos imundos e inúteis. Irei abraçar cada embale que me propuserem, vou colher todos os frutos de cada um e mergulhar nas recordações que possuir sempre que necessitar de recorrer a palavras esgotantes.

Quando nos oferecemos a nós próprios, quando mentimos, quando erramos, quando criamos, sem dar por isso, novos rumos à nossa vida, tentamos fazer com que tudo corra bem. Cortamos laços, reatamos e voltamos a começar. Depois do momento em que

Colocou a mão no peito, respirou para dentro e repetiu a doçura da palavra que era. Questionou a validade da força que tem, se valeria a pena fazê-lo. Tentou uma vez e percebeu que era a altura certa. Voltou, então, ao seu cubículo, para dentro de si e navegou até ao mais profundo sopro que podia transparecer e, nesse momento, uma mancha de energia correu para

Tento começar e recomeçar escrever aquilo que senti e que quero que sintam, mas por mais que tente sei que só com as palavras reais e sinceras podia fazer passar o que quero. Mas essas não vão repeti-las, nunca.
“Em todo o lado essa palavra, repetida ao expoente da loucura.”
teima em fazer a distinção entre o certo e o errado. se, por momentos, parar, percebe que não são esses segundos que lhe dão o que tem, esses segundos são desperdiçados a mentir aos seus tons e a medir cada passo com a cautela que podia ser substituída por um pouco mais de energia. eu dou-lhe as palavras, ela colhe-as e reverte-as em acções. de um momento para o outro o que parecia uma nuvem enrodilhada e escondida por entre estradas subterrâneas, agora é a luz de um novo dia e a força do caminho a percorrer sem olhar para a frente, para o lado, ou para dentro de si.

Vemos olhos serem pisados como uvas, vemos luas sem um sorriso espelhado e mares guiados por confissões. Definimos um protótipo daquilo que nunca completaremos e do conjunto de momentos que aperfeiçoam o último ser que poderíamos encarnar. Passados uns pequenos e suaves segundos vemos os nossos dedos a indicarem e a nossa falsidade a sair para fora, a expressar-se como se expõe naquela ou naquele. Por momentos senti-me agarrada a um pesadelo que num só dia se tornou realidade três vezes. Mordi tornozelos e deixei a minha pele sonhar comigo. Transformei pedaços de pão em água e pastilhas elásticas em adúlteras colunas de som. Deixei escorrer vida que fugiu através da porta que deixo aberta todas as manhãs, a porta que tem proibido a entrada a qualquer pessoa que não eu. Uma das sete chaves está escondida nas mais profundas costas do pescador que tanto nada, nas escamas do peixe que procura e por de baixo das teclas do piano que assobia. O som do melro que canta dentro de toda esta fantasia deixa mil e uma melodias que cantam o mesmo refrão, refrão esse que deixa transparecer sentimentos fundidos, escapadelas repentinas e sonhos pervertidos. Se me deixares eu peço desculpa, mundo.
[dentro de tanta coisa é roubado tempo para isto, que tanto bem me faz.]

às vezes sente vontade de poder dançar dentro de si mesma. quer poder voar por entre cada osso, percorrer o lábio de forma soalheira e chegar até à testa para lhe dar o mais doce beijo. às vezes pensa também como seria se fosse capaz de chegar até ao pico mais alto, como seria se pudesse ver o mundo de cima, acompanhada dos seus longos cabelos e curta consciência. cheia de vida, deita-se e ganha o tempo perdido apenas a olhar à sua volta. vê muitos, muitas - muitos - e sente necessidade de ser capaz de um dia poder chegar mais atrasada. quer parar por agora, sentir o que tem para sentir nestes breves momentos em que se deita por baixo da relva da sua pequena e solitária varanda. eu esqueço o mundo, eu vivo por mim, para mim e para os meus.

erros, desejos e impaciência. é do que o meu cérebro está invadido nestes dias que parecem não acabar. um desabafo sincero é algo que ainda não tinha tido e que me fez ter ainda mais certezas de que elas, as culpadas de tanta culpa, são um jogo que usamos para esconder, com uma espécie de capa preta, algo que não queremos que ninguém veja. cada pessoa que entra merece a culpa que os outros lhe apontam. merece cada dedo que lhe é assinado. eu sinto o meu corpo anotado por mim mesma e não tenho forma de me omitir. tudo agora é preenchido por cinzento, apenas os meus contornos continuam verdes. as cores acabam por me salvar, sempre. [obrigado]

tudo muda e o medo flui por entre portas vazias e desenhadas a frio. encontro-me entre esperanças e um milhão de filmes. por entre escapatórias escritas por mim, em tom de laranja, deixo fugir as minhas extravagantes e já singulares esperanças. quando os dias se tornam incondicionalmente mais longos, pergunto aos poucos verdadeiros que tenho se vale a pena estar aqui e se carregar todos estes tons de azul me pode fazer cair num poço de sensações indesejáveis. depois de acabar o desenho, posso dizer que apenas o vento me caminha e que não sou eu quem me comanda. vou sobreviver aos escuros e ganhar claros a partir de doces vozes desenhadas a lápis de carvão.

um rebanho de momentos. cada palavra sugada pelo seu íntimo lhe custou mil vidas. agora, no fim da longa viagem que é a vida, reflecte sobre situações que gerou, revive cada contacto e, acima de tudo, relembra todos os momentos que teve consigo mesma. sempre que tenta lembrar-se do cavalo de corda ou da pequena bola alaranjada, já rota, a memória já não consegue ver um filme, capta apenas fotografias. já lhe chamaram de insensata e repentina. eu quanto mais a vejo diante de mim e dentro de uma pessoa que amo, mais significado lhe dou. já chega de rótulos e de desculpas. o simples significado que ela dá a um beijo ou a sensibilidade que tem perante um simples toque que percorre a sua face dobrada tiram todo o mal que lhe atribuem. um dia todos lá chegaremos, um dia todos a veremos perante os nossos olhos já brilhantes e caídos.

Nada incomum, nada estranho, perto de nada. O mesmo velho cenário, a mesma velha chuva e não há explosões aqui. Então algo incomum e estranho vem do nada. Vi uma nave espacial voar perto da tua janela, tu viste-a? Vem sentar-te no meu muro, lê-me a história do "O" e conta-me como se ainda acreditasses que no fim do século há uma mudança para nós todos. Nada incomum, nada mudou, estou apenas um pouco mais velha, só isso. Tu sabes quando encontraste isso, há uma coisa que aprendi apenas porque tu a sentiste, quando eles o levaram embora. Algo incomum, algo estranho, vem do nada. Mas eu não sou um milagre e vocês não são santos, sou apenas outro soldado indo para local algum. [Amie - Damien Rice]
é tempo de mergulhar entre margaridas e de deixar as espinhas para depois. abraço esta flor com a esperança de que a possa usar num futuro bom, num campo verde, repleto de luz, de um calor frio e sempre com uma pequena criança, de vestido clássico vestido, saltando entre as rochas que se avizinham ao meu pensamento. se pudesse corria para lá, viajava até ao espaço onde me deixam brilhar, o único onde descanso. sei que cheiras bem, e podes até estar de cabeça ao sol, as tuas esperanças podem estar a diminuir, mas porquê enviar toda a terra para trás das costas? eu partilho, lá em cima, o quarto da pequena clássica. with love, alaska

um três indesejado

por mais ventos ou palavras que venham contra mim, o que eu sinto está certo. porque cada letra e cada frase que tenho escrita na testa, apesar de estar num sítio onde só à frente de um espelho posso ler, só a mim me pode dar certezas do que penso ou experimento. quero poder gritar ao mundo que tenho razão, quero fazer um desenho como aos pequeninos se faz, quero soletrar a palavra amor para que todos me percebam. não é difícil perceber-me, prometo. só quero que possam dar-me razão quando digo que a tenho. sempre que perguntam por mim, eu sei de mim, sei onde e como estou - larguem-me.
lá fora só passavam filmes enfurecidos, caras mortas, corpos pesados. na minha frente, por trás do enorme bicho sentado ali, vi passarem luas, vento e ruínas. esse bicho, que carinhosamente cuidava e acariciava algo para onde olhava com o normal e descuidado interesse, chamou a atenção do meu eu. olhei, voltei a olhar e revi-me, em certa parte.
já ao meu lado tinha não o auge do que quero ser, mas um bocado grande disso. a liberdade que tem dentro de si, os rodopios que dá dentro do próprio corpo assustam-me e cativam-me ao mesmo tempo! 'faz-me' bem, como faz a mais. mas sei que a mim, por ser eu a senti-lo, me faz mesmo, mesmo bem. é uma sensação que não consigo explicar, à qual já aprendi a desagarrar-me e com que consigo jogar muito melhor, agora. são poucos dias, num ano, que significam muito. sejam grandes ou pequenos, com ou sem borbulhas, com as bochechas gordas ou não, eu quero esses dias, que tanto bem me fazem. um obrigado e aquela palavra que, para ti, não digo de forma banal.
depois de uma longa viagem, as batidas consistentes de cada noite ficam dentro da cabeça e continuam a puxar os ombros, os pés e os braços. foi uma viagem pouco cultural, óbvio, mas alargou o meu coração a muita gente. não àqueles que porcamente me olharam, mas sim aos que conseguiram conquistar 4 noites, que conseguiram dar-lhes mais cor. a todos um obrigado do tamanho do mundo pelas barbaridades que diziam, pelos brindes que fizémos, pela guitarra que acompanhou canções pouco dignas, pelos beijos de boa noite, pelas piadas, por tudo. agora, o que fica são as músicas repetitivas mas chamativas, as fotografias e os vídeos de fraca qualidade mas de grande significado.

chaga

quando eu cair eu espero, ao menos, que olhes para trás.
[Chaga - Ornatos Violeta]

há palavras tão frias, que nos tornam o corpo a pele de uma galinha. é um arrepio que atravessa as costas e que, quando chega à cabeça, nos provoca medo de nós próprios, medo de termos escolhido mal as palavras, a força com que empurrámos ou os conselhos que demos. são tantas dúvidas na cabeça de uma crinça que acabam por corroê-la por dentro. tudo se tranforma de doces e leves penas em pesadas nuvens carregadas de água. água corrosiva ao coração das almas onde toca.

razão

quando me perguntaram quantos dias tinha uma semana, fiquei perplexa. são nuvens que passam a cada uma e que não deixam uma única gota. o cheiro, sinto-o. aquele aroma dos morangos frescos de Primavera. como-os e sinto-lhes o sabor no meu paladar. agora, dou comigo a tentar não fechar os olhos, a oferecer mais uns sorrisos ao mundo, à secretária e ao lençol preto que se descobre por baixo de mim. cansei os calculismos, as medições feitas a medo. fiz tudo o que devia, e nunca dei a volta por cima. não acredito em Deus, não acredito no destino nem em bruxas. acredito no hoje, no agora. vou dormir, aspirar o que de bom os sonhos têm e antever algo que hei-de trazer a este mundo, só amanhã, num agora próximo.

«mais chegadinhos»

tanta, mas tanta energia. fazia tudo mais umas mil vezes, dava os mesmos pulos, fazia mais umas corridas iguais às que fiz naquela longa rua. o momento em que me sentei atrás de um carro foi delirante. a parte mais surreal foi levantar-me e estarem todos os meus bisnetos a correr para o outro lado para me procurar. os beijos, os abraços, os paços de dança que se fizeram estão dentro de mim, ainda agora. cada presença ali teve um significado. cada um me tocou de sua maneira! obrigado pelas longas nove horas que contam esta noite.

banco de apostas

sons breves, colcheias mudas, cheiros corrosivos mas agradáveis - é o que de melhor a vida tem. o chilrear de um pássaro sabe bem, mas não é o melhor, tal como o cair do café dentro da minha chávena ao pequeno almoço. bom bom, é arriscar, é sentir apenas por um milésima de segundo, ouvir apenas o que não posso (mas consigo) e pisar uma linha proibida. o máximo que me pode acontecer é morrer. mas venham daí as vozes julgadoras, venham os jogos de sedução e os boatos; eu estou nessa linha, a rir-me das mesquecisses que geram por um cão verde.

tinta preta

como tudo se pinta! e fazem-no de tal forma que chegam a pintar-se a si mesmos. é uma volta que o meu estômago dá ao cérebro. e é aí que reformulo o sítio onde estou, onde formo um caminho só para mim, só com a minha carteira, o meu casaco e a minha música que sai do meu mp3. nesses cinco minutos andei, vi pedofilia nos olhos de um rapaz e tristeza nos olhos de uma criança. vi muito álcool, janelas sujas, idosos, uns zangados e outros orgulhosos. são estas caminhadas que me fazem esquecer a cor escura de que pintam uma árvore. eu dou-lhe a sua cor verdadeira - o azul e o amarelo.

porto

O Porto é mesmo a cidade dos que se perdem pelas ruas caracterizadas pelo vermelhão e o amarelo. São os pequenos e grandes senhores sentados à mesa a conviver, conversando acerca do preço do peixe ou do jogo da semana passada. São as pessoas a acordarem mais cedo para chegarem a um sítio que fica apenas a cinco minutos de casa, mas que devido ao extenuante trânsito que caracteriza esta cidade, são forçadas a adivinhar a aragem mais cedo. O Porto tem a cor e o cheiro que uma criança inconsciente guarda dentro de si, é feito de fitas e de linhas sem sentido algum; são as pombas que se tornam amorosas por nos acompanharem em vez de fugirem, são as praças cheias de luz e tão guardadas de remorsos. Não é o tamanho físico que a caracteriza, mas sim a força que esse tamanho impõe. É lá que me refugio, é lá que passo maior parte do tempo calada, por me sentir obrigada a admirar o que de tão bonito esta cidade tem dentro de si.

estrada

era mesmo um sonho meu, algo por que dava tudo. escrevo uma história agora, a de onde tirei o último pedacinho que coloquei aqui, e revejo-me na personagem que criei. a rapariga já de vinte anos que agora se cinge ao mundo. já passou por muitos sítios, viveu mais nesses dois anos do que na vida inteira. ainda que nova, sabe mais que o próprio avô, sente mais que ele; liga mais ao pormenor do que o geral. eu gostava de poder sentir como ela, viver como ela. largava tudo - família, amigos, casa, país, e fazia com que apenas a estrada me guiasse. via a vida do rapaz da China, observava o pé do de França e mimava a doce pequenina que vadiava, como eu, no cimo de uma colina de África. acho que com esse pouco me contentava para a vida inteira.

um simples baloiço

Estivemos à conversa longos minutos, onde lhe contei acerca da semana que passei na Noruega, das caminhadas que fiz e do sol que apanhei, até que me pediu que o acompanhasse às traseiras da casa – os baloiços. Acredito que com muito esforço, conseguiu renová-los. A ferrugem já não morava ali, foi comida pela cor que ele lhes ofereceu. Estavam laranjas, com umas riscas azuis e o pedaço de madeira onde nos sentamos agora era amarelo. Mesmo com os meus vinte anos feitos, a vontade de me sentar naquele grande brinquedo como uma criança era tanta que tive de o fazer. Puxei-o pelo seu frágil e esbranquiçado braço e pedi-lhe que me empurrasse como nos velhos tempos. só consegui sentir o vento. a brisa. a magia. o som.

é o varão

deixa que a neve, o sol e o arroz caminhem ao longo dos teus braços. a esses deixa-os sentir a vibração estonteante que os assusta e acalma ao mesmo tempo. quero que feches os olhos e adormeças no nosso sono, na nossa história. sabe bem não sabe? eu habituei-me a viver numa bola gigante, vivo a tentar perceber porquê o ponto, a vírgula ou a paisagem. tento guardar cada imagem. e secalhar, por isso, tenho a impressão de que linhas foram apagadas e que o algodão doce das nuvens que odeio se instalou. agora está instalado o cor-de-rosa que todos os dias ignoro, veio para ficar. para viver? isso não! sei que são só mais uns silêncios e o coração vai ao sítio.
cada osso que te dou é para te irritar, tu sabes, gosto de o fazer. e esse sorriso parvo? é a minha perdição. sorriso p-a-r-v-o inês. sabes que te amo muito, que és muito para mim e que ao longo do tempo foste conquistando parte dos meus dias. aqueces os meus leucócitos, aturas a minha paixão pelo Nandinho e dás voltas aos meus limites. obrigado minha suína, por me fazeres levantar da cama bem cedo para ter mais um dia ao teu lado. no início sabemos que tudo aconteceu muito rápido, que invadiste e criaste um espaço só teu dentro de mim. de um momento para o outro estávamos nitidamente felizes a comer os nossos folhados mistos, tu a gozar com as minhas saídas loiras e eu a ouvir-te falar do teu cartão de crédito com o sorriso parvo nos lábios. amo-te, 'porque todos os dias de manhã antes de iniciar mais um caminho, é em pessoas como tu que penso e é por vocês que me levanto, que vou dar mais alguns passos naquilo a que chamam vida, que para mim não passa de um castelo que se vai construindo pouco a pouco. uma amizade, uma palavra, um sorriso, um desabafo: todas essas acções servem para acrescentar mais um bocadinho àquilo que construímos todos os dias. sem pessoas como tu a minha maneira de agir, de ser e de ver as coisas não seria a mesma.' mesmo que não gostes das mesmas músicas que eu, que não gostes de jantares à luz das velas, são esses pequenos pontos que fazem de ti o que és para mim.
amo-te inêjamaral

desentendimentos

Não ousem duvidar de que os sinto ou como os quero sentir. Vocês, pensamentos, impedem-me de consentir. Nos momentos em que a vossa tarefa seria recordar-me valores sábios, agradáveis e apetecíveis de experienciar novamente, relatam-me histórias do dia que passou, do mês ou do ano que passou… Depois disso vêm as dúvidas, pois está claro. Aparecem as perguntas sem resposta, os dedos apontados a mim própria e a eles. Roubam-me o sorriso e oferecem-me chuva que possa ser derramada nas maiores claves onde escrevo. Não façam isso, não tentem oscilar entre um sim ou um não. Deixem-me a mim escolher, com tempo, com a pouca mas boa maturidade que tenho. Fujam, não vos quero perto de mim, nem sequer ver-vos.

três minutos e cinquenta segundos

é como se me envolvessem em cordas feitas de pesadelos, como se o preto inundasse uma chama que se afirma pela cor que anteriormente tinha. agora, que me apercebo do grito de que o meu corpo precisa, digo a palavra que me põe inteiramente bem. esperneei-me toda, dos pés à cabeça, até as forças me faltarem e já só conseguir mexer, ainda que lentamente, a boca. depois de uma luta entre palavras, entre sensações, a minha boca exigia o fechar de frases que eu própria deixei incompletas, frases essas que sepultaram sentimentos que sempre quis ter para sempre. agora, cada vez que o vejo, sinto-o. sempre que posso mostro-o a alguém: finjo a vontade de mostrar e gozo a sensação de o ver – diversão irracional. quero ir além do além e chegar onde o meu eu pede, onde o meu deseja.

chama

deixa-me correr, deixa-me trincar e ouvir o som da maçã enquanto a trinco com uma força e com um desejo de lebre, deixa-me arrancar o som que uma margarida tem dentro de si. quero poder agarrar esses pormenores e fazer uma viagem de um segundo até ao mundo da tal maçã. como dizem «a liberdade conquista-se» - eu sinto-lhe o cheiro e cheiro-lhe o sabor cada vez mais perto! agora deixem-me, larguem as asas que tenho no cérebro que vão levar-me até onde eu quiser, onde eu e eu quisermos. vamos? prometo que sabe bem sentir o rio debaixo dos nossos pés e cheirar uma simples erva daninha que nos perfura o dedo e deixa a marca e o êxtase durante minutos. é isso que quero sentir, o que a natureza provoca, o que ela, só por pensar, me traz.

alegria irónica

Imagina uma frase meiga. Esta, bem longa, termina com um ponto final bem bêbedo. Está completamente fora de si, completamente embriagado e mergulhado somente nas coisas agressivas e brutais. Tudo isso o levou a mostrar-se, finalmente. A sua presença estava dentro de mim há já bastante tempo, mas nunca quis acreditar que conseguia fazê-lo. Agora que disse, que fiz, sinto-me bem, mais corajosa e cheia de razões para assim ter agido. Não perguntes, não tentes sequer perguntar o porquê disto - sabes melhor do que ninguém que mereces. Neste momento ganhaste um espaço gelado e cheio de más energias, recheado de gorduras e de dias chuvosos. Obrigas-me a manter-me calada e a ter a posição mais difícil e firme no final. Desculpa, mas eu tive de o dizer. Prometo que te magoaria mais se guardasse tudo para mim. Continuo a esconder a pior parte, mas verbalizei-te em todos os géneros, feitios e formas, de maneira a perceberes que não vales mais que isto.

escrever (?)

Tento sempre escrever com a maior clareza que conseguir conquistar. A cada palavra que percorro lhe sinto o sabor, cada uma significa um e um só travessão. Um ponto final é um suspiro e uma vírgula é a voz do silêncio que inunda a palavra que a antecede. A voz dos meus textos reflectem-me a mim, só a mim. Há dias em que o que canto está nos tons superiores e outros em que tudo está enrouquecido dentro de mim, em que nem o que quero dizer consegue escapar ao monstro que é o ponto de exclamação – esse? significa uma mistura de euforia com medo umas vezes, e algumas luzes psicadélicas e infernais noutras. Sei que os meus textos, por vezes, são longos e demorados, mas não quero, cada vez que reflicto acerca de alguma coisa, deixar uma ponta solta ou uma página em branco. Todas as páginas são para serem preenchidas, escritas com carvão, recheadas de sonhos, calor e emoções e embrulhadas pelas mãos mais dóceis que conheço.

Meme

Ora bem minha Mafalda, nunca respondo a desafios, mas este vou aceitar. Tenho então de dizer as 3 frases que acho serem mentira acerca da Mafalda e depois escrever as minhas 9 (6 verdades e 3 mentiras):

Começo então por dizer as três fases que acho serem mentira acerca de ti:
- Falo tão bem Francês quanto Português.
- Faço colecção de etiquetas de marca e laços-estrela.
- Muitos dos meus fins de semana são passados no campo, embora eu deteste.

Passo então agora a dizer as minhas nove frases:
- Um dos meus objectivos é voltar a viver no Porto.
- Naturalmente, sou morena.
- Há quase quatro meses que não como carne.
- Já fui a Espanha, Áustria, Inglaterra, França, Itália e Noruega.
- Sofro de aracnofobia.
- Sou muito insensível.
- Gosto de bacalhau com massa.
- Sou eu que corto o meu cabelo, algumas vezes.
- Gosto de fígado.

Não vou desafiar ninguém, quem quiser, tente adivinhar (:

contraste

É o explodir de contrastes. De repente vi-me sorrir como se tudo o que com que sempre sonhei estivesse a dois dedos de mim, como se tudo tivesse sido transformado em rosas de uma cor indefinida, como se tudo estivesse parado para me ouvir, para me ver assim. Agradeço a essas não pessoas, a esses que tanto me dão. Na verdade, eu dou-me a mim, entrego-me àquilo que de melhor tenho – a minha própria consciência. Percebo que tenho de ser eu a conquistar todas as capitais de sonhos, todos os sorrisos tremidos que conseguir dar. Se eu os conseguir acolher dentro mim, todos os vão sentir, cada um vai tocar de uma forma sensivelmente diferente, todos vão viver cada segundo de cada gargalhada. Vejo-te no meu interior e, com esta atitude, consigo perceber lucidamente o que dantes não estava ao meu alcance, a que, anteriormente, não conseguia chegar. Agora tenho nos pés os melhores guias e só a eles posso pertencer.
Como posso eu falar sobre isto com alguém se nem eu própria me percebo? Ninguém pode perceber o que sinto se nem eu sei explicar. É estar a olhar para a frente, ver aquele roxo que me obriga a pensar no futuro. Odeio pensar no futuro mas pensei por breves segundos, e aterrorizei-me do que há para fazer, do que não vou poder saborear! Queria voltar a ser criança, onde em nada disto pensava, onde simplesmente me limitava a olhar. Aqueles que nos olham na rua, que nos admiram com o prazer nojento estampado na cara, porque nos admiram assim? Limitam-se a trabalhar onde podem, nas obras, não pensam. Reduzem-se a sentir o prazer que lhes dá olharem para uma rapariga. Eu não quero pensar no futuro. Se penso nisso o que me apetece fazer é ir embora de vez, largar tudo, largar os que amo, e ir até onde puder sem ter para onde ir. Sinto-me estranha, como se o eu estivesse numa viagem eterna, interminável. Não o encontro agora, se calhar fui mesmo eu que fugi, cansei a palavra esperar. Odeio rotinas, odeio linhas traçadas e caminhos decididos. Queria sair disto, poder sentir a liberdade no rosto e não ter de esperar por ninguém nem estar à espera de nada. Mal possa vou estar a fazê-lo - prometi a mim mesma, para poder sustentar. Se demorar, não sei se fico (...)

sem interrupções

Sentes-me ao teu lado? Sentes o meu cheiro, o meu toque e a força que faço para te poder olhar fixamente, sem interrupções? Eu sei, todos os dias o faço, todos os dias te observo como pela primeira vez e revejo um conjunto de existências a lutarem entre si. Dentro de ti vejo uma nébula escura, assustada. Tenho receio de te perfurar ainda mais, de poder encontrar algo em que penso tantas vezes, não quero fazer de ti alguém que finjo nunca ter conhecido. Tenho medo que nunca tentes, que fiques mal pelo que escrevo, mas tudo o que digo sei que encaixa em cada pensamento que lês. Quero-te para sempre, ao meu lado. Não duvides que morreria por ti, que atravessaria estradas de medo, fobias ou terrores. Fazia-o para te provar que sou capaz, que não sou o sonho desfalecido, a cor neutra ou a chaga que odeias. Agarra-te a mim, eu levo-te numa corrida, numa corrida que vai deixar sinais de terror dentro de ti.

botão

Tento sempre dar tudo de mim e deixar o máximo do que tenho em tudo o que faço. Se puder pintar azul sobre amarelo, pinto, porque o que interessa é deixarmos a nossa marca, deixarmos aos outros a ideia de que ninguém pode atingir o que desenhamos. Nada é inteiramente nosso, mas tudo pode ser marcado por nós. E o ser humano tem essa capacidade - a de criar, de inovar dentro de si mesmo, de poder formar novas leis para os seus botões, esses que mandam só em si, esses que são livres de todas as perspectivas reais e irreais. Todos temos dentro de nós um espaço para poder fazer suposições do certo ou errado, todos temos a possibilidade de arcar novos caminhos, novas realidades. Eu sonho com isso todos os dias, durante todos os momentos em que mergulho dentro dos meus braços indolentes, dentro do som que me inala, dentro desse mim. Tudo o que classifico como sendo insensível se transforma num conjugado de rugas e de cores transparentes que, sem me conhecerem, conseguem alcançar o máximo do meu eu.
Começaste por subir um degrau de cada vez. Cada um tinha o seu valor, cada um transparecia uma cor combinada com o seu significado. Cada passo que deste passou-me, a mim, uma vontade enorme de me juntar a ti, de percorrer essa linha que te levava até ao outro lado. Senti-te no topo, a reparar em cada pormenor de uma simples folha, a olhar para a brisa de vento que te pousava o cabelo no sítio errado e a ver tudo o que tinhas de caminhar para chegar abaixo de novo. Reparaste no tom azul que se sobrepunha a ti mesmo, no verde em que te sentavas e no algodão doce que te tapava. Foi aí que te convenceste de que bastava encarar o sorriso como a melhor coisa que podias fixar na tua face, de que tudo o que tinhas de fazer era esquecer as dúvidas e concentrares-te apenas na rampa que tinhas diante de ti. Então, sorriste e escorregaste até conseguires mergulhar num mar de recordações que fizeram surgir, dentro de ti, uma explosão de gargalhadas. Soube bem ver-te assim, soube bem ver-te soltar essa lágrima, símbolo de uma decepção feliz. Quero-te assim, para sempre e para mim.
Há palavras que nos invadem e encaminham para dentro de nós uma espécie de desejo de fuga, mas há também as que duram anos a evaporar, que às vezes nem fogem, e que formam um ninho de dentro de nós, porque com elas sentimos que aprendemos muito, é muitas vezes nelas que nos apoiamos para não escorregarmos, ou até mesmo cairmos. São palavras que servem como molde para a criação de um quadro que envolve todas as emoções existentes num passo dado. Essas, são símbolo do pensamento dos outros, símbolo de algo que apenas recebo porque pensaram que merecia que as entregassem. É com as palavras, com as respostas que me dão a cada texto que escrevo, que aprendo e ganho coragem. E leio-as muitas vezes, principalmente, nos textos que falo sobre um pedido de ajuda a alguém que maior parte das vezes não conheço, mas que me conhece a mim através do que digo. Isto tudo porque às vezes um sorriso não chega, porque dentro de nós tudo está inundado de mágoa e ele não pode ter força para lhe vencer a ela. Afinal, tudo se resume à força de vontade, e essa, muitas vezes, ganha-se com as palavras dos outros.
Obrigado.

Desafogo

Sei que a vida é para ser sentida lentamente, sem provocar no tempo um medo de nós que o faça fugir, sem pressa de educar a independência dentro e fora de nós. Mas há linhas que eu gostava tanto, mas tanto de inundar com rapidez, de preencher sem ter de confiar. Há coisas, dentro de mim, que preciso de reformar, que sei que não estão no instante necessário para poder caminhar até atravessar para outra margem, mas sei que não sou dependente de tudo, de mim. Sei que, por momentos, voltava atrás mil vezes, corrigia mil passos e ontem podia ter tido um dia melhor, um dia menos chuvoso, com a visão de menos mil rostos amargos. Há dias em que só nos devem dar a arma quando ela está carregada, se não agimos mal só por acharmos que nada nos vai trazer problemas, que nada vai trazer um prejuízo ao nosso dia a dia. e de que serve isso? De punições, às vezes exageradas, mas que temos de sofrer, independentemente da nossa opinião. Queria voltar atrás para corrigir o que fiz, não por mim, pelos outros. A vontade que tenho de mudar alguma coisa tenho de a guardar para mim, porque só eu e os meus a conseguimos entender.

Desprezível

Caminhei, como se de um dia ordinário se tratasse, como se fosse mais um insignificante para acumular ao livro que tanto saboreio. Tive vontade de o seguir, uma vontade insaciável que me comia cada fugida, que me subornava com doces cantigas. Então, sem conseguir resistir, fui atrás do rasto luzente que deixava para trás, dos sonhos que largava a cada passo que dava. Estive sempre a seu lado sem o deixar aperceber-se disso, com a ideia de o ajudar a recompor o rosto morno que carregava e o corpo seco que se molhava a cada gota penetrante de chuva. Tudo lhe era invisível e só uma coisa via à frente - os pés. Não olhou para cima durante toda a viagem. Achei estranho, no início, a forma como de repente parou, como se um abismo o tivesse confrontado. Reparei nos números que trazia na cabeça, na palavra que levava atada ao coração e na data marcada na anca. Tinha os olhos inundados de medo e raiva. Retomou a sua direcção e eu a minha sincera perseguição. Passámos por um caminho de terra, com bichos de que a mesma se alimentava e, posteriormente, atravessámos uma ponte que me foi familiar – era semelhante àquele sinal de trânsito, na curva apertada da minha cidade. Sem querer ser egoísta e concentrando-me no que queria fazer, continuei essa leve e densa caminhada. O meu corpo cansou-se, os meus lábios secaram e a minha alma arrefeceu - quando dei por mim, estava parada a ver o mundo rodar a minha volta, a desaproveitar a oportunidade de um desafio, a oportunidade que ele teve. Estava a deitar num chão definitivo tudo aquilo que queria. Pus um ponto final em tudo, em mim, em nós.


[o meu amanhã (4) vai ser medonho]

centésima repetição

Querer uma coisa e não lhe conseguir tocar e ter tudo aquilo que ela obriga trás a sensação de inutilidade. Irrita-me o facto de o desejar tanto e nunca o conseguir atingir. Queria um dia poder chegar ao modo de ter tudo o que posso nas mãos, na pele, no grito que dói e que corrói a camuflagem. Gostava de, por momentos, pôr o esforço de lado e conseguir manter-me de pé e aguda sem ele. Quero-te a ti, quero poder voltar ao tempo das anotações, em que tu e eu éramos uma só, em que me podia abraçar a ti, apesar de não existires, em que os outros mentiam e só tu, quando eu me via, me dizias a verdade. Quero poder sentir-me limpa novamente, quero poder passar um dia sem me arrepender de ter o acto de levantar a mão direita e de me poder sentir orgulhosa de mim mesma, só peço uma semana. Foi a mais dolorosa, em que, teoricamente, os que são melhores que tu, os que mentem, me pediram para parar, mas foi a que me trouxe bem-estar, prazer e comodidade. Pela centésima vez – quero repetir-te e sentir-te dentro de mim, a comer-me cada desejo da que odiamos e a quem desejamos morte. Percebi hoje que preciso outra vez de ti.

fuga

Vou agora aprisionar o que não quero. Vou falar com esse tudo e vou ensinar-lhe a fugir. Quero avisá-lo de que já não me amarro a si, que não lhe vou tocar novamente e que, principalmente, o vou pousar desviado das minhas decisões. Apercebi-me de que nada disso ofende, bem pelo contrário, só risca aquilo que devia predominar todo o dia, aquilo que me oferece luz nos cotovelos mais sombrios. Depois de uma longa conversa com ele, vou ferir tudo o que nele estiver vivo, vou fazer-lhe o que me fez a mim, deixá-lo sem um vestígio de entusiasmo. Vou agir assim porque sei que esta punição é pura, limpa e necessária. Vou afogar ciúmes, desconfianças, rivalidades e medos. Vou saber vencer quando tudo esperar isso de mim, quando o rectângulo me disser que me odeia ou quando for confrontada ou comparada outra vez. Acho que, finalmente, consegui criar uma torre de necessidades que me vai ajudar a alcançar melhor tudo o que não conquistar daqui para a frente. Toda gente quer ser triplicadamente boa, mas nem a palavra, nem ninguém pode existir (ou ser) assim. Eu não quero ser boa, apenas quero ter o que é bom, quero ser genuína no que faço e brilhar em cada palavra que lhe disser.
- Pareces Fernando Pessoa. O teu problema é, exactamente como ele, não te encontrares. Se não sabes quem és, se não gostas da maneira como és e se mesmo quando tentas gostar tudo te parece confuso, significa que não sabes o que és, acho eu. Tenta seres tu, sem querer agradar a ninguém. Não penses no que os outros possam pensar nem sejas o que querem fazer de ti. Nota-se que és grande já, que já sabes tomar decisões, simplesmente não sabes quando as tomar. Se já não sabes o que é bom para ti não penses tanto.
- Como é que paro de pensar naquilo que os outros pensam ou acham de mim?
- Basta quereres, basta não ligares à sociedade materialista que temos, que só pensa no que dizemos ou como dizemos. Tens de ser tu, só tu. Aprendi isso há tão pouco tempo, em 18 anos só há um ano aprendi a agir assim. De que te serve fingires algo que não és? De que serve viveres para agradar aos outros? As únicas, únicas… Só as pessoas que gostam de ti realmente, que te aceitam como és, é que gostam de ti. Se agires conforme querem que tu ajas que estas aqui a fazer? És um pau mandado da sociedade? Tens de ser tu. Se não gostas do 'tu' então muda, mas por ti, não pelos outros.
- Estou farto de ouvir o mesmo, da mesma maneira. Eu preciso daquela maneira daquela palavra, daquela chave, daquela luz que brilhe que abra uma porta e que diga. TRUFAZ É isto e pronto. Não há mais.
- E já procuraste essa palavra?
- Já. Mas não sei qual é, nem sei como encontrá-la.

Às vezes há perguntas que só o tempo pode resolver. É preciso paciência até encontrar as soluções para coisas a que ninguém sabe responder, e essas são provadas com acções, com atitudes, com força de vontade. Só nós podemos conduzir essas respostas e nós é que temos de as transformar em gestos que possam oferecer felicidade a todos os dias para que acordamos.

sentir ou ser

o mundo salvaguarda-se quando se diverge em pedaços de terra e de sonhos. todos vivemos de sonhos. eu aprendi a conciliar as duas coisas. aprendi a saber ver a realidade, habituei-me a não viver num mundo pintado com as cores que quero e a saber tirar partido de todas as pessoas que crio dentro de mim. cada um é como é e cada um toma as suas escolhas. embora umas menos acertadas, todos temos esse direito e esse dever. todos temos de saber o que agarrar ou o que largar, porque se não soubermos acabamos por perder confiança não só naquele que queremos agarrar, como também no que largámos e nos podia ensinar tanto sobre um mundo completamente fora do nosso, fora do real - um mundo recheado, cheio. de quê? de natureza. cheio de campos onde flutuar, cheio de nuvens onde deitar, cheio de sonhos onde viver.
nada real pode ser cor-de-rosa, nada real pode ser imaginado. há imagens desfocadas, imagens sem sabor, sem paladar e sem um único ruído. essas são as melhores, as que mais guardo na alma, as que mais me tocam e me deixam mais tempo adormecida. mesmo por não ser capaz de as ver nitidamente, são como um desafio que me ponho, mas que não resolvo. sabe bem vê-lo apagado, sabe bem mordê-lo assim - sem exactidão. aprendi a aproveitar esse recheio no meu mundo, mas de uma forma conciliada e moderada para, assim, poder ser feliz. não sentir-me feliz, ser feliz.

Sem dúvida

Não estou com cabeça nenhuma nem com espírito para poder escrever como gosto, para poder explicar exactamente aquilo que sinto. Tenho vontade de poder rebentar e cuspir tudo o que disse e tudo o que pensei naquelas três horas. Todas as perguntas que me fiz agora têm um sentido ridículo, sinto-me eu ridícula por olhar para o que fez, para o que me disse. Tudo me parece uma mentira desmedida, um corte pela raiz a uma planta que ainda há pouco nasceu. Por mais que puxe qualquer tipo de arte, que dantes me aliviaria, para me poder concentrar noutra coisa, toda a força que está na ponta dos dedos para apalpar as teclas do piano, a imaginação que está na cabeça, tudo isso desaparece. Agora só uma palavra, só um dia gravado está dentro de mim, só isso me ocupou a cabeça enquanto aquelas quatro conjugações de sons me invadiam com altos e baixos que me proporcionavam o mesmo. Tanto pensei nos meus problemas como nos deles. Hoje o dia correu melhor, soube-me melhor que ontem, sem dúvida. Faz-nos bem às vezes descarregar tudo o que nos assusta em caminhos descendentes que acabam por evaporar.

Áspero

tu não consegues controlar aquilo em que pensas, não é assim tão clara a imagem do momento em que cedeste os teus sentimentos. olhas para o que queres e consegues não atingir o suficiente, o que te faz conseguir parar. os teus lábios tremem, as tuas mãos gelam e o olhar derrete-se. ficas insegura e encontras-te a ti própria quando olhas para o melhor, quando bebes o chão onde caminhas, onde passas e deixas um rasto vermelhão que assina o profundo inatingível. não é o que esperavas ou o que querias esperar, é apenas mais um suspiro que se transformou, mais uma vez, em tons aflitivos, em sons graves e em imagens escuras. e quando o mar colide com o teu coração, quando as esquinas viram curvas, quando o que sentes se sente bem, o barco que sempre navegou em ondas melancólicas agora passa a balançar-se sobre uma cópia de algo que amas. pega-lhe ao colo, põe as palavras na ponta dos lábios retraídos dos outros que se caracterizam por serem vivos. agora só tens o que lhe tiraste num balde de tinta e não podes voltar atrás, não podes fazer com que nada mude. e sabes que é difícil pintar-te mas o quarto do teu jardim está trancado com palavras que só a pele que sua todas as manhãs consegue transformar num arco-íris a preto e branco, algo que ninguém vê, ninguém atinge. será tua a culpa? pergunta, apenas.

bebé

tudo aquilo que me dás, todos os não que me ofereces, os pequenos-almoços à pressa, os almoços feitos por nós, os jantares com o sumo que tanto gostamos, o ouvido que quase perdeste, as atitudes que tens que eu critico, esse cabelo com o ninho atrás todas as manhãs, essa franja dividida por um remoinho que te caracteriza desde que te vi nascer, essas unhas que de tanto falo (...) tudo forma uma linha de catorze anos que a pouco e pouco cresce mais um ano, mais um dia, mais um segundo. num dia com vinte e quatro horas posso gozar contigo durante vinte e três delas e durante a outra não estar ao pé de ti, mas se não fosses assim não teria a quem roubar beijos ou dar à força. sabes que cada beijo, cada abraço, cada segundo em que te faço cócegas, em cada dia que não te vejo - todos esses momentos constroem uma muralha enorme que me defende todos os dias. podes não ouvir o mesmo que eu, podes não gostar da mesma camisola que eu e dizer 'ó mana, que horror' numa loja, podes gostar de alesana (ou coisa parecida) e eu gostar de sigur rós (que para ti são músicas para dormir), mas o nosso sangue é o mesmo, a nossa primeira cama foi a mesma, dei-te tantos beijos em pequenina, brinquei tantas vezes contigo e de dia para dia vejo-te crescer e passar exactamente pelo que eu passei e vejo-me em ti apesar de com gostos tão diferentes. todas as fases que te transformaram numa mulher, em vez de gozar, como tu fizeste, ri-me e senti-me orgulhosa (o que sempre te irritou), por me ver em ti, porque é contigo que partilho mais essas coisas, é contigo que janto com a televisão aos berros, é ao pé de ti que sou capaz de fazer coisas nojentas, é a ti que te roubo metade de um crepe ou um bocadinho de sumo e aí a tua personalidade ataca e és capaz de fazer aquele som que tanto repito 'tse, ah' e que mais ninguém faz tão bem como tu. cada estalo, cada pontapé, cada palavrão que te disse fez parte. e desde o dia dois de agosto de 1994 que cresces, que te desenvolves, que largas as barbies e te agarras ao computador, que deixas as papas e te babas com crepes, que deixas a zippy e vais comigo às outras, e passados uns anos deixei de te chamar bebé e passaste a ana joão.
quando for embora vou eu, e vai o teu coração comigo, o teu coração rockeiro, traquina, irrequieto, endiabrado, alegre e familiar.
amo-te

Proveito

Com cada erro que escrevo, com cada queda que dou, com cada caminho em que me engano, formo um conjunto de linhas que guardo nas primeiras páginas, como uma defesa. São os dias mais difíceis, que nos tocam mais, são nesses onde nos concentramos mais sem lhes conseguirmos dar um não seguro. Deixam feridas disformes, marcas de dor encoberta que só com tempo e cérebro se curam, só com a força do dia anterior se ultrapassam. Um dia bom traz-nos a alegria do seu título, o sorriso ao deitar ou uma gargalhada legalizada. Um dia mau não passa a ser pior por não brilhar tanto – só tenho de o transformar em força e coragem, só tiro apontamentos da lágrima que me limpou o rosto para na vez seguinte já saber como me deixar pura e igualmente limpa. Chorar faz bem, como o outro dizia, mas é melhor guardar as lágrimas que só nos trazem ainda mais melancolia, que chamam representações de que temos medo, vozes que nos azedam ou sons inquietos. É disso que mais gosto – da dor que senti e da coragem que não tive para não escorregar nas rasteiras que os dias nos dão – porque é isso que me ensina a caminhar e a saber ouvir a verdade de um pranto.