Proveito

Com cada erro que escrevo, com cada queda que dou, com cada caminho em que me engano, formo um conjunto de linhas que guardo nas primeiras páginas, como uma defesa. São os dias mais difíceis, que nos tocam mais, são nesses onde nos concentramos mais sem lhes conseguirmos dar um não seguro. Deixam feridas disformes, marcas de dor encoberta que só com tempo e cérebro se curam, só com a força do dia anterior se ultrapassam. Um dia bom traz-nos a alegria do seu título, o sorriso ao deitar ou uma gargalhada legalizada. Um dia mau não passa a ser pior por não brilhar tanto – só tenho de o transformar em força e coragem, só tiro apontamentos da lágrima que me limpou o rosto para na vez seguinte já saber como me deixar pura e igualmente limpa. Chorar faz bem, como o outro dizia, mas é melhor guardar as lágrimas que só nos trazem ainda mais melancolia, que chamam representações de que temos medo, vozes que nos azedam ou sons inquietos. É disso que mais gosto – da dor que senti e da coragem que não tive para não escorregar nas rasteiras que os dias nos dão – porque é isso que me ensina a caminhar e a saber ouvir a verdade de um pranto.
Vi, hoje, à frente de uma montra de uma pastelaria, um senhor de estatura média e cabelo branco. os olhos brilhavam-lhe como se neste mundo não estivesse. passei de carro mas todos os pormenores se transformaram em coisas óbvias.
por não terem dinheiro são piores que nós? por terem de nos tirar um euro para almoçar deixam de merecer a vida? se temos um coração tão grande, que bate tantas vezes por segundo, porquê não deixar de rir os minutos em que gozamos com eles e passarmos a vê-los de outra forma? o valor que nós damos a um prato de comida é o que eles dão a um abraço quente numa noite fria! muito daquilo que eu tenho era capaz de dar. dava para poder educar um sorriso brilhante num deles, e bastava a um porque os outros, com o companheirismo que eles ganham entre si, impossível de haver entre nós, sorririam também ao vê-lo feliz. sei, chego a ter certezas, de que todos passamos por eles e nem sequer damos pela sua presença, enquanto que a um de nós, pelo perfume, pela pulseira, pelo casaco, pelos ténis, pela parte ridícula, somos capazes de observar e de invejar por ter a etiqueta vestida. é a falsidade que transforma uma indiferença a um sorriso cínico e que, sem darmos conta, nos confronta todos os dias.
e o mais ridículo é que sou obrigada a usar um eles e um nós.

Cisma

ele cresce. devia diminuir, para meu bem pelo menos. é como aquela música gloriosa que marca tanta coisa, que ouço vezes sem conta e da qual não me farto. ele ouço-o e não me farto, como a tal. começa com uns ruídos imperceptíveis, depois começa a aproximar-se de algo conhecido, que já ouvi antes, em que já toquei antes, que até já cheguei a saborear lá naquela Espanha mais longe que a real.
não me apetece mesmo escrever agora, estou a ser invadida pela estupidez e por um sentimento que repugno que tenham. as dúvidas também são tantas, também deviam diminuir, para meu bem pelo menos. mas os sons graves e agudos são mais fortes que eu, mais fortes do que a minha razão, o pensamento agora está em cima de tudo. quero rever tudo, em câmara lenta. pede-mo só, que eu faço.

escrever

não me apetece. voltou a voz do silêncio, agora.
segundo me conheço, esta noite vai durar, demorar e porlongar-se por uns dois dias.
Perguntam-me se quero o mundo? Não, quero apenas a terra. Quero poder transmitir do meu coração o brilho em que o Sol nada, transformar as pétalas de uma margarida em belos e longos braços aquecidos pelo espírito enérgico de quem vive, agasalhar um pouco de céu dentro de mim e remodelar todos os traços imperfeitos para doces cantigas de bravura. Se eu pudesse ter tudo isso, o que fazia? Ao início não vivia, limitava-me a observar – poder ver um mundo tão perfeito, tão puro e honesto diante do meu corpo seria estupefactamente inspirador para poder, então, cantar uma nova vida, onde ninguém se vendia por um preço rancoroso que chega a educar o nojo. Tenho fome de quem canta para mim, um desejo enorme de comer toda a terra que aquece o chão onde passo e uma guia para passar a quem achar que tudo se resume ao que vemos no lado real.

into the wild

“I'm gonna be all the way out there, all the way fucking out there. Just on my own. You know, no fucking watch, no map, no axe, no nothing. No nothing. Just be out there. Just be out there in it. You know, big mountains, rivers, sky, game.”
deve ser tão bom poder ter a certeza de que não vão haver guerras dentro de nós, de que nada nos pára nem nada nos pode tirar a sensação de liberdade, um sentimento de que muita gente foge por exigir muita responsabilidade. o bicho, sem saber, deixa de ser livre quando se agarra a alguma coisa, quando se torna materialista, quando dá valor à marca, ao preço, à identidade.
essa palavra tão grande não passa de um conjunto de atitudes em que fazemos o que está certo e não ficamos sufocados ao fazer o que não devemos. há momentos em que chega a altura e a vontade de sentir o corpo andar por si, não nos deixarmos controlar, não sermos comidos pela sociedade. e dou por mim infiltrada nesse mundo sem perceber se estou onde devia, sem entender o que tentam vender, dizer ou enganar. muitas das vezes é um punho que nos trespassa sem darmos conta, sem nos apercebermos o que causámos. Se não houvesse luz, tempo, certo ou errado, nada se conjugava e formar-se-ia um novo suspiro, uma nova forma de viver onde tudo se resumia a uma planta, a um passo ou a uma brisa gelada. a cada passo que o Homem dá forma um novo erro que se pode duplicar ou quebrar o risco que nós corremos e merecemos.
Vamos respirar e passar para a próxima etapa.

Escada

Para quê tentar reformar aquilo que já estava destinado desde que o sol ardeu pela primeira vez, no segundo em que o mundo começou a correr e na altura em que o clarão foi visto pelo círculo completo e esverdeado?
Tudo se restringe às tentativas falhadas – essas que fazem o ser humano querer desistir e afundar as suas forças num baú que é abrigado no mundo mais longínquo e menos concreto.
O sol que nasceu a brilhar só agora me aquece transversalmente com uma vaga de frio que me preenche todos os espaços vazios e todos os tons imaturos, que me apaga todas as mágoas que ainda podem ter um canto de vida.
Agora, que estou sentada, no escuro da alma, onde o pó se apodera de mim, onde ninguém me ouve, entrego-me ao momento e penso em todas as companhias da euforia. Dentro do meu sonho consigo criar um arco-íris, consigo transformar uma roda num pé, uma revista num livro recheado de poesia e despido de ruídos. E todas as dores que visualmente me caracterizam desaparecem - passei a transbordar apenas a cor da calma, da serenidade, do conforto que tenho comigo, dos parques, dos cafés, dos bancos de jardim e da madeira apedrejada.
Aqui, ouço um relógio, sinto-lhe o tom e cheiro-lhe as batidas melancólicas e solidariamente contínuas. É como se o tempo agora me tivesse sido entregue, como se tudo o que gira à minha volta esperasse por mim.
O mundo parou e o meu corpo continua a balançar-se nesta pancada que me agonia a cada longo segundo.

Um ano e trinta e quatro dias depois

O que vejo não é, de longe, o que esperava de mim. Tenho, diante dos meus olhos, a decepção do que tinha planeado desde um dia 17 de Dezembro de 2007, um dia escuro que me mostrou uma solução. Foi nesse dia que muita ligação se cortou e muitos fios se reavivaram até soltar algo esperado e assustador, ao mesmo tempo. Não sou obrigada a desejá-lo outra vez, mas a mente obriga-me, ela obriga-me e eu sei que sou capaz de chegar ao mesmo ponto, porque se já lá estive, se já lhe toquei e já a cheirei, ouvi e senti, porque não voltar a fazê-lo e a sentir-me limpa, melhor e superior de novo? Basta um esforço, umas horas, menos subsistência da minha parte. Eu sei que o meu corpo aguenta não ser corroído por algo avassalador, algo que apenas me traz mau ambiente íntimo, que alimenta uma mancha dentro e fora de mim. Pode até dar-me robustez ou passar-me vida, mas traz-me o que menos quero, aquilo de que tenho pavor e que tantas vezes desonrei. Não me guardo porque não me dou autoridade para isso, mas às vezes gostava de poder ter um cotovelo onde me camuflar por completo sem ser rotulada. Tudo vai voltar a anotações, comentários, ao caderno corado e às tentativas frustradas. Eu sei conquistar, fica a promessa num dia 20 de Janeiro 2009, mais de um ano depois.

Claridade

Levemente adocicada.
É como se todos os problemas tivessem desaparecido. Estão lá, mas não os sinto nem os ouço! É maravilhoso o que a concentração faz comigo. Notas que cantam, é um ritmo viciante que muda aos poucos e que de repente se transforma em batimentos mais modestos, mas mais acelerados. Apetece-me chocolate, apetece-me mergulhar dentro do mar gelado, onde o corpo não se sente, a alma rói e os dedos dos pés socializam. Não me apetece voar, o meu coração só precisa de para pum pá para conseguir fluir sozinho, basta o movimento direita-esquerda para me conseguir concentrar e ser capaz de transbordar sorrisos sucessivos, gargalhadas fluorescentes! Tudo me atravessa e nada me ultrapassa. Tudo tenta arrasar mas só o toque mais simples o faz! Estou preocupada porque o meu corpo perdeu três vezes ,mas de que interessa o que o rodeia? Nada. A cada tempo reconheço aquela manhã que ainda agora voltou a começar. Passo a vida a fingir que, de certa forma, ela se repete.
E o ritmo aumenta..
Mas esqueci, e também não é suposto lembrar-me. Na segunda oportunidade fui mais alto, qualquer coisa que tinha de ver, vi. Tudo o que havia para ouvir o meu corpo saboreou. Tanta despesa, mas eu virei-me para o outro lado. Não vale a pena, deixei que o ritmo que conquistasse e voei. Não com asas, é outra maneira de voar, outra forma. Basta deixar-me levar.
É o efeito da música.
Serão efeitos secundários da poesia?

à parte (mesmo)

foi naquele momento que o laranja se tornou amarelo. um relógio que eu própria controlava transformou-se num padrão aos quadrados, um padrão ofuscante, confuso. cada quadrado tinha um padrão, e cada padrão um quadrado. cada segundo parecia uma hora, e cada hora se tranformou de repente num mar de segundos. apetece-me kings!

dia à parte

Lembro-me do primeiro salto que dei, das primeiras atitudes em que senti que o foco esteve apontado para mim, em que os que mais admiro me admiraram também e em que se formou a primeira ilustração daquilo que há tanto esboçava dentro da minha cabeça.
Nos dias em que penso que podia ter usado mais forças, em que podia ter sido menos egoísta e ter arriscado mais, nos dias em que alguém me diz que podia ter sido melhor nada se liga, nada reage. Nesses dias, o silêncio apaga a minha voz. Mas a voz do silêncio é a que diz as maiores verdades, a que fala mais alto e que consegue chegar até ao fundo da sala mais longa que tenho dentro do meu coração. Ele escuta, reprova e cria o seu próprio escudo - sabe que está errado, que nesse dia errou. Que naquele exacto momento devia ter dito não e que no momento a seguir devia ter chegado ao tecto mais alto da sala mais comprida. Os dias em que este silêncio me consome de uma forma arrogante são dias que guardo nas páginas finais, que abomino, páginas que apenas guardam a força e coragem para o próximo dia menos bom que chegar.
Hoje, é um dia em que me apetece dizer palavras estúpidas, gritar com toda a gente, berrar comigo, morder quem me tentar contrariar e ser a pessoa mais orgulhosa do mundo. É um dia em que pouco me passa ao lado, tudo me irrita e toda a gente está contra mim. Há dias assim, e dias como estes fazem-me sentir como nova no dia seguinte. Faz-nos mal ter todos os dias pintados de cor-de-rosa, só com coisas boas, só com sorrisos. Hoje, não choro, bem pelo contrário, tenho vontade de não agir como devo, apetece-me quebrar regras, ser presa e fugir.

Jazz

A música tem em mim um efeito que mais nada pode ter. Permite-me deixar de pensar em problemas, em desafios menos provocadores, em distúrbios.
E, recentemente, o jazz faz-me lembrar as manhãs de sol, elementos discordantes, verdes, faz-me pensar no arrugante estalar do dedo, na cadeira de madeira e no abanar divertido da anca e dos ombros. É um tipo de música que me apaga do sítio onde estou e me leva até às teclas do piano. Traz-me o riso prevertido, o sorriso que vem da esquina do olho, a nitidez de sábados à noite.
São momentos que apaparicam a vida, momentos de ouro, sons de autocarros, pessoas, corações que se misturam e criam uma melodia docemente estúpida.
No fim de a ouvir sinto-me... Satisfeita!

Espera!

O que importa afinal, viver ou saber que se está vivendo?
(Clarice Lispector)

Para que querer saber que estou a beber água se de facto o que estou a fazer é matar a sede? O que eu faço, todos os dias, é navegar no rio que atravessa o meu chão, colher todas as flores que encontro e cumprimentar todos os leões ou pássaros que vejo! O Homem acaba a vida a medir passos, a seguir carreiras ou a traçar caminhos. Eu descobri, com o tempo, que o importante não é, de longe, agarrar-me a nada, nem ter de pensar no que tenho de fazer amanhã para poder ser feliz e ter um dia melhor. Eu tento viver cada momento com a sua graça, retiro de cada gesto uma recordação e de cada sonho que tenho, guardo, com a força que aprendi a ter, aquilo que tenho de trazer para a realidade. A partir daí os caminhos traçam-se, os dias conquistam sempre a sua pureza instintiva e o tempo, em vez de correr, passeia.

Viagem

Agora já não o consigo sentir da mesma maneira, porque foi tão intenso para mim que a concentração que ali adquiri não é possível de ter de outra forma. Mas verbalizo-o, com a recordação do que se passaram naqueles dez minutos.
Mandou-me deitar, fechar os olhos. De repente, a luz que incidia nas pálpebras dos meus olhos desapareceu - agora limitava-me a sentir o meu corpo. Pediu-me para fazer uma viagem e repetiu essa palavra mais que uma vez. Comecei por me imaginar numa viagem que realizei e que me trouxe tanta água quente aos olhos, até que ele disse a palavra Corpo. E essa palavra diz-me TANto. Comecei então pelos cinco e percorri-os com a calma que ele pediu, com a concentração máxima – abstraí-me de tudo o que se estava a passar, dos sons não desejados e da vibração consistente. Passei para os nervos mais fortes, eram vermelhos, alguns arroxeados. Vi a pedra no centro e descortinei uma parte esponjosa (não sei porque a imaginei assim). Caminhei mais um pouco até encontrar um conjunto de órgãos tão complexo que não o consegui observar. Vi apenas os dedos entrelaçados dentro de mim própria. Subi mais um pouco e, para meu espanto, imaginei tudo brilhante, como diamantes: o queixo, o nariz e a parte superior da cabeça.
Essa viagem acabou antes de ele me mandar acordar. Então aproveitei e pensei no que realmente estava a fazer, pensei no corpo, no peso que tem, na força que transporta. Centrei-me no peso. Senti que estava a ser empurrada contra o colchão, contra uma parede. Nunca me tinham posto assim, nunca me tinham dado tanta liberdade e quando a senti desta forma pensei em coisas que nunca recordei com tanta intensidade, momentos tão livres, tão arriscados.
Vou repeti-la, como ele pediu, antes de adormecer.

Vermelhão

A pouco e pouco cria-se um canto macio, um espaço em que se abreviam as feridas todos os dias, todas as noites. Eu entendo esse lado como sendo positivo porque é onde se podem criar sonhos e esperanças, onde se formam rios de recordações e onde se transforma uma negra nuvem em palavras belas e claras. Faz de uma rosa vermelho difícil, uma flor que, na minha memória, tem um tom creme, leve e azul. Aí, consigo transformar mares de mentira em sorrisos simples mas cálidos. Afinal, todos podemos remodelar um trono cruel em retratos cuidados e pintados com as fantasias que a nossa alma autêntica molda, porque a minha vivência é sempre marcada por cores e sons que eu traço, nada é real, tudo se trata dessa fotografia que embelezo com palavras cores-de-laranja, azuis, verdes ou roxas. Se não pintarmos o nosso mundo, a nossa existência, tudo o que presenciamos se torna numa rotina com falta da pimenta que esta vida exige.

Ainda bem que o Tejo é lilás.

nenu

Cada pessoa que conhecemos preenche um lugar no nosso coração, aquele lado onde guardamos, não as pessoas em si, mas sim o que elas nos trazem e todas as figuras que vamos conhecendo ganham um significado, cada uma à sua maneira, cada uma com a sua importância.
Tu trazes mais do que qualquer amigo. Tu consegues fazer-me passar de um choro compulsivo para uma gargalhada imparável, e houve uma noite em que conseguiste fazê-lo de uma forma brilhante. Chorei tanto, estiveste ao meu lado, sentada, ouviste-me soluçar como uma criança, mas poucos minutos depois estávamos a dançar música dos anos 80. É isso que amo em ti e que me faz tão bem. Consegues remexer nos meus sonhos, mudá-los e torná-los possíveis. Há atitudes tuas que servem como uma chama para aquecer o pedaço que vais alimentando todos os dias. Tento ser-te a mais sincera, sempre, e tudo o que tenho a mais é teu, tudo o que me dás eu recolho com o dobro dos braços que tenho e todos os sorrisos que esboças são alegrias que me ofereces!
Sabes melhor do que ninguém que ao longo destes anos o que formámos é muito forte e neste momento és mais do que uma amiga, mais do que a Inês Vaz, mais do que a minha amiga, colega ou consciência, és a que ponho em primeiro lugar, aquela com quem partilho tudo: sorrisos, choros, abraços, refeições, banhos.
Amo-te por me transmitires tanta força, por me ensinares o caminho que devo seguir todos os dias, por me chamares irresponsável ou por me dizeres que estive bem.
Obrigado Inês.

Ouro

É leve e forte, trespassa tudo e consegue dar-te tudo o que precisas para poder estar ali, calma, mas a presença é pouco. A presença dessa palavra no nosso dia-a-dia não chega, temos de agir e intervir com os nossos ideais porque viver é isso mesmo. É invocá-los, senti-los e transportá-los em forma de onda para a ponta dos dedos. É colocá-los no topo, no fim.
Todos os grãos formam o ilusório, todas as gotas criam um molde para uma pausa, todas as expressões se apoderam da vida e começam a girar à volta do pensamento da criança que sempre quis voar. Esse desejo concretiza-se, basta sentir a areia nos pés, a água no sangue e conseguir sorrir com o maior impulso, impulso esse que tira o cansaço de todos os sítios que atingimos. Portanto, continua onde sempre viste esse lago. Nessa mesquinhez, a glória e a tristeza trazem-te o que mais anseias. Nas noites frias de Outono e na solidão que sentes, eles estão longe da gravação da tua memória. É aí que podes encontrar a calma que precisas.

rima para ser outro


Há músicas que nos tocam tanto. E dessas, tenho um conjunto que me leva para outro sítio.
Uma delas já não ouvia há muito tempo e ela tem um significado inexplicável. Recentemente confrontou-me por duas vezes. Faz-me lembrar um fundo azul, com verde e laranja à mistura. Lembra-me o escritório do coração, o objecto que traça um som que controlo, os tempos em que vivi sufocadamente. E é por voltar a ouvi-la tantas vezes, sem ser por vontade própria, que me obrigo a mim mesma a recordar esses tempos em que o céu era negro, o ar estava sujo e em que a minha alma deformava, sem perceber, o perfeito. Todas as cores estavam manchadas e desiludidas por não serem transparentemente doces. E agora ouço-a e encaro-a de outra forma – vejo uma mudança, positiva, que me invade o olhar íntimo que dou a mim própria.

Sonho

Adormeci. Parece que já durmo à muito e o cansaço conquista-me. Ali, na escuridão, já amortecida, sinto que eu própria quero sair de dentro de mim. A fraqueza domina a vontade que tenho de partir desta cerca onde permaneço à tanto tempo. Sinto-me livre, como se de uma pena me tratasse. Levanto-me, mas ao mesmo tempo sinto-me ainda estendida na cama. Tento agora concentrar-me na estrada que quero percorrer, os olhos focam o céu frio que me transmite várias luzes. Passo agora para um mundo impossível, mas real. As estrelas transformaram-se num jogo de luzes persistente e ofuscante. Fico agarrada a esse mundo, quero-o para sempre. Quero deixar aquele que nada me diz, que me perturba e que me traça um caminho que não quero percorrer. E foi por isso que me ausentei, não só pela fraqueza, mas também pela ambição daquilo que não posso ter agora, ou nunca. Procuro um mundo onde nada possa ser real e em que as pessoas não sejam ninguém. Agora, o meu corpo acompanha rigidamente as pancadas do relógio que representam um mapa do coração que lava o frio e me transpõe para o vivo. O meu coração está imóvel, mas tranquilo, enquanto eu descanso num breve sonho.

2009













Uma noite que se reduziu à simplicidade de brindes, abraços, beijos, música e muitos gritos.
Sejam louvados o Bob e Madonna!
Mais uma para o espaço mais quente do coração.

Ténue

Eram seis vultos que observei naquele Caminho. Dois representaram o que quero para depois; os outros quatro tomaram conta do meu coração sem me conhecerem - tinham aquilo que admiro continuamente, longe ou perto. Tinham o toque e a fala mais doce e recente, mas atitudes invejáveis e que mereceram três partes do bolo.
Inveja é mau, às vezes. Desta vez fez-me mal e trouxe-me para o sítio onde estou e onde pertenço por agora.
Vultos ausentes, ali, que me viram chorar com uma frase tão pequena mas que me diz tanto nestes dias. Vai ser sempre assim, e dias como este merecem-me bem, porque para que os grandes me recebessem aqui tive que fingir um sorriso que passou para algo puro e obrigatório.
Agora estou aqui e, por enquanto, estou quente com o calor da lareira. Venha domingo.

[30 de Dezembro de 2008]

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Senti-me acordada, com dúvidas da veracidade do concretizar daquilo que ansiava. Tornou-se sufocante poder pensar nos tais coloridos e na curva apertada que quero sempre. Tudo aquilo que queria, aquela chegada ao meu mundo, essa ânsia dissipou-se no momento em que abri finalmente os olhos, com um esforço merecedor. Cheirei o conjunto de padrões e de tons que me deixa sempre cativa a esse tacto, já alcançado nessa altura.
Quando mais espero, maior é a vontade de chegar e, em consequência disso, aperto ao peito o que guardo de cada livro para poder sempre ter em conta o tempo e o momento.
Parei, olhei e reflecti.

menina

fico feliz por ti, criança.
de uma forma pouco conhecida e tua alcançaste o inalcançável. subiste à montanha mais alta, deste o salto mais corajoso e concretizaste o sonho que querias - ser maior mas ter menos responsabilidades.
faz-te bem agires e odiares-te assim, porque nem sempre o que odiamos nos faz mal! a ti, catraia, fez-te renascer e crescer até chegares àquilo que és. oferece-te uma liberdade grande, mas medida.

ó tu, criança, parabéns!

Natal

A época natalícia é uma das que gosto mais. Aquece-nos sem percebermos como - o quentinho da lareira da avó, a saída de casa que me acorda tanto.
Fizemos a troca de prendas na quinta à tarde e, para mim, o mais importante não foram os presentes, não foi a lata de soja, não foi a Pandora nem a bolsinha, foi o momento. Foi o facto de ter criado mais um momento no meu coração, no qual guardo os sorrisos mais emocionados e as gargalhadas mais parvas - como se fossemos crianças, inocentes.
As músicas natalícias são um à parte, ponho de lado, não gosto de as ouvir sem ser na noite de Natal, a tocar naquele rádio que quase cai aos pedaços mas que deita as notas de uma forma diferente. Soa a família, a recolha, a amor, ao ignorante e típico jogo das cadeiras, ao carro dos bombeiros ou à gasta trotineta. Aguardo essa noite, essa noite com os números um. Hoje parto para essa noite, para outra, e outra (...)

Second chance

Encontrei calma, esta noite. Muito longe daqui, das estrelas. Cansada destas luzes e de tudo o resto, continuo a construir a minha própria luz que compensa tudo o resto. Não faz diferença, desta vez - é difícil de acreditar.
Esta glória traz-me coragem e nos braços deles, longe daqui, a partir deste espaço desconhecido há algo que tu sentes e guardas. E a gravação do teu silêncio faz-me encontrar o meu conforto.

Fixa a mim mesma

Que frustração, não conseguir passar o que preciso para aqui deixa-me incomodada comigo mesma. Secalhar é mesmo melhor assim, há coisas que não podemos deitar para fora, não há expressões puras que o possam fazer, não há a imagem nítida daquilo que queremos. São palavras que eu sei dizer, mas que não consigo exprimir, é muito medo de as exteriorizar.
São coisas que não conquisto, não sou capaz, sentimentos livres, teimosos. É como algo preso, incapaz de arranjar força e coragem para se libertar.
Continuo, apenas..
tive de o fazer - há momentos em que acumulamos realidades negativas, as tais coisas que ignoro. até ao instante em que basta um toque para tudo ir abaixo outra vez. para tudo voltar ao inicio do ciclo que está gerado. e vai ser sempre assim, eu sei disso, sei que as trocas de emoções nunca vão parar, vai haver sempre uma razão, um simples alento para mudar tudo. uma palavra, uma sentença de mudança.
desde há muito tempo que tenho aprendido que quanto menos queremos, mais acumulamos e assim muito pior é o momento em que tudo cai. quero a força para me levantar mas essa está roubada, foi-me tirada por algo superior a mim própria.
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Quero que tudo corra bem princesa, amo-te *
A cidade que considero a mais viva e apagada ao mesmo tempo – a chegada daquela coluna com tons amarelos, verdes e vermelhos, depois a curva acentuada de ansiedade e, por fim, um abandonar que assegura a chegada ao conjunto de sensações que me transformam. Não consigo justificar a minha reacção. Sei que é ali que me quero demorar. Sinto o cheiro certo, arranjo as palavras genuínas e tudo passa a réplicas e semelhanças desiguais que admiro vivamente. Aquilo que me enche é como um extenuar de dificuldades, de desordens. Nunca vou conseguir explicar o efeito que me faz e, por isso, continuo a vivê-lo sempre da mesma forma, impossível de expressar. "O lar é onde o coração do homem cria raízes." (Henrik Ibsen)

Neutralização

Sim, agora tenho tudo organizado.
Decidi transpor todos aqueles sons e jeitos para um único sentimento de súbita elevação. Transformei o escuro em claro, o vermelho disforme em amarelo apetecível e todo aquele azul remodelei-o para um laranja que me consome sempre que penso nisso. Vontade de regressar? Não. Só penso em repetir vezes sem conta até o meu coração me mandar parar. E é a isso que se chama persistência. É a vontade inabalável e agradavelmente inconsequente que me faz agir assim.

Disfarce

De um momento para o outro vejo-me fugir. Como quando passamos por um candeeiro, aparentemente abandonado na estrada, em que a nossa sombra desaparece à medida que nos aproximamos.
Essa estrada transforma-se então no caminho que vou formando à minha frente e, sem perceber, enquanto o tempo corre sinto-me mais distante de mim própria, a ignorar aquilo que sei que tenho de completar, só para poder aguentar mais uns instantes que se transformam num para sempre. Mas é esse ignorar que traz os momentos mais delicados, que mais me ficam junto ao coração.
Ter de fingir que estranho isto é mau, mas não sou capaz de não passar por cima de certas coisas. Tenho de gozar o conjunto de emoções que se formam no rosto da vida.

Presença abstracta

Há momentos em que nos sentimos refugiados e esse cantinho que criamos faz-nos sentir melhor. Podemos até originar consequências negativas, mas esse espaço que damos a nós próprios torna-nos algo superior e capaz de chegar muito mais longe.
E há conversas que temos com a nossa consciência que nos abrem os olhos e nos fazem pensar mais em coisas que classificávamos como ignorantes e desnecessárias. Agora dou-lhe uma importância muito mais forte, mais profunda e cultivada. Tenho vontade de regressar ao passado e poder rever e sorrir mais nos momentos em que simplesmente observei a sua partida. Tenho pena, mas tenho-o comigo, agora. E a sua presença vale mais do que mil palavras, mais do que um simples beijo de recompensa, mais do que um não.

Mentira

paras, olhas e reflectes. pensas no que está para trás e no que sabes que vem. sabes que foi bom, está a ser óptimo e ainda pode ser melhor. o mau vais embrulhá-lo numa folha de papel, mandá-lo fora. não merece estar aí, nesse olhar que transportas todos os dias, nessa Coisa fingida que passas. às vezes é preciso descer para se ver o que há nas zonas mais escuras, mais escondidas, naquilo que não queres ver mas que no caminho te apercebes que vais encontrar. transpiras sentimentos que queres deitar fora, mas não consegues concentrar-te o suficiente para o fazeres, persegue-te horas e dias a fio. precisas de força e vais buscá-la ao melhor que tens - consciência. são palavras que saem sem dares por nada e que te vêm à cabeça num 'abrir e fechar' de olhos. abres, fechas, voltas a abrir e és obrigada a ver a realidade. vive!

tu contradizes-te.

[25 de Janeiro de 2008]

Um começo



O sítio a que chamaram coração é, para mim, um conjunto intrigante e complexo de defeitos, qualidades e experiências. Cada toque, cada sabor, cada cheiro tem o seu significado e cada um passa a transparência de algo que queria repetir, que queria acentuar num retrato. E todos esses passos, errados ou certos, formam uma composição que trata a história que a nossa existência escreve, do livro enorme que forma, das alegrias que traz e dos ensinamentos que dá. E esse livro é o que está e vai estar sempre na “mesinha” de cabeceira para poder reflectir sempre que me deito e sempre que acordo.