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Já se ouve ao fundo do corredor a balada que traz ao colo o brilho daqueles olhos resplandecentes. Dando um passo conseguimos descobrir sentimentos encarnados, um arrepio no sorriso, o sapato parece que se desaperta e acorda aquela música que tão quentes palavras dita.
Aqui ao lado já se ouve o piano - aquele piano. Enquanto canta, conta histórias. Até esta hora a melancolia era capaz de sugar todas as cores que o observavam, mas chegou agora a altura de abrir as cortinas e gritar ao mundo aquilo que tão feito de vermelho se guardava. Não vale a pena guardar-se dúvidas, de nada vale cantar uma música sem a ouvir ao fundo. Eu ouço-a e tenho-a cantado todos os dias, apenas com um retoque naquele acorde que me faz prometer tanto a todos os pés que me seguram. São muitos.

Não me interessa o chão, o céu, o tempo ou a forma como me enxergam, tenho-te a ti. É como aquelas fitas de seda que se deixam voar por aí até encontrarem um ponto que lhes faz bem, que as agarra e amacia como nunca pensaram ser possível. A sensação é-lhes impossível de descrever, é uma coisa estranha que dá comichões às borboletas que se acham rainhas desse pedaço vermelho que carregamos ao peito. Venha aquela comichão, venha a chuva ou a saudade que mata, o tamanho cura tudo e o tempo encolhe, e tu? És gigante.
às vezes há coisas que nos transcendem e são convenientes o suficiente para se apoderarem de nós, mesmo que tenhamos deixado uma passagem oculta por muito tempo. fazem-no sem deixar recado, num limitado espaço de tempo, com o coração nas mãos e uma lágrima no canto do olho. há coisas que aparecem quando as mãos se recusam a receber e no momento em que menos dávamos por elas, que acordam uma parte de nós e a aquecem de forma única. há coisas que crescem mesmo em dias chuvosos que procuram o sol, mesmo que tudo em volta esteja contra. há coisas que nos dão permissão a um sorriso que guardávamos para a sua chegada. há coisas que simplesmente são coisas nada simples.

Tudo começa por uma linha que ainda não conheces ao certo. Não sabes onde vai, quem leva à sua frente e quem carrega às costas. Após te acenarem e te contarem um segredo desmedido e inimaginável, sorris e, sem pensar duas vezes, aproveitas a dobrar a sensação de ver algo tão brilhante e grandioso. Vês almas perdidas passarem à tua frente, nadarem sem qualquer afogo, nus de preconceitos e, ao enxergares, apercebes-te do tamanho que algo escuro traz consigo, a impaciência com que passa por ti e a forma como foge até ao mundo onde já não apareces. O claro chegou e fica para te atormentar e para te dar ordens às quais nunca pensaste não te opor. A melhor opção? Levantar os braços como o precioso fez e olhá-los de lado, sem pensar o que podem achar de ti, sem olhar a prejuízos ou superstições. Limita-te a deixá-los partir, navegarem até esse mundo desconhecido; quando se esquecerem do que são, do que trouxeram, do que deixaram para trás, vão voltar atrás e repetir outra vez, e outra vez, e outra vez.
é uma incapacidade inata, explicar as coisas que não temos nas mãos, aquelas que vemos com os olhos, que cheiramos igualmente com o olhar. aquelas que,  ainda nos trazendo más memórias, conseguem ser potentes à vista do nosso coração e fazer com que ele soe mais alto que aquele meloso abrigo. sente-se uma enorme marca no caminho confuso que é o regresso... nasce a vontade de cravar palavras nessas ruas regadas de ouro, cantá-las uma a uma, ouvir o hino de cada história gravada na parede e planear atalhos inconscientemente.

esse dia vai ser meu.
As vestes envidraçadas viraram agora cinzas nessa cadeira consumida por olhares indiscretos. Depois de gastos uma e outra vez, os ouvidos já não correm e pararam para dar atenção ao lar, ao toque, ao aroma das roupas lavadas, do chão molhado e da mala por abrir. Quer-se um mundo, uma estrada, uma viagem sem destino, um marco para a vida inteira. Esse vai fazer com que o nariz corra sem pés, nade sem mãos, vai permitir que um mar de ideias, de recordações e de correrias desiguais fujam e parem num fresco recomeço. Desta vez não há solidão, não há espaços vazios, não há pontos finais; há milhares de vírgulas e de correrias descontroladas até ao fim das frases nascidas no fim dos nossos tempos.
Deixa-te de coisas. Deixa-te consumir pela monotonia da vida, pelos olhos verdes, pelos fumos indecisos, pelas telhas desprezadas e pelas casas condenadas. Deixa-me jurar-te que um dia vais ter os pés embrulhados nesse papel escabroso e que vais estar seguro ao chão que sempre viste de longe. A vida é um dia, o sol enfraquece na metade e as luzes apagam-se quando o que ideavas ser não está contigo. Morres quando o rosto se macula, sentes quando o coração se castiga e o lume se apaga. O verniz acabou e o vermelho desapareceu, a pele domina-te a hesitação e apercebes-te que és o que querias ser mas não tens o que querias ter.

Ninguém é quem queria ser, eu queria ser ninguém.
It was one of those days when it's a minute away from snowing and there's this electricity in the air, you can almost hear it. And this bag was, like, dancing with me. Like a little kid begging me to play with it. For fifteen minutes. And that's the day I knew there was this entire life behind things, and... this incredibly benevolent force, that wanted me to know there was no reason to be afraid, ever. Video's a poor excuse, I know. But it helps me remember... and I need to remember... Sometimes there's so much beauty in the world I feel like I can't take it, like my heart's going to cave in."

American Beauty

Há tanta vida atrás do real e do que apenas vemos com os olhos. A beleza está na importância que dão a cada visão; quando é clara a verdadeira excelência das coisas, dão por eles completamente engolidos por essa luz. O olhar e o sorriso embalado e protegido que aquela criança me transmite sem saber quem e o que sou mostram que é possível ser-se feliz sem saber, todos eles são felizes sem saber, são infelizes apenas nas palavras que deitam no ar doente que os rodeia. A vida está cheia de desavenças e de tons bem escuros que só lá estão para que eles próprios sejam capazes de ultrapassar velhos e maus tempos e de ver o que realmente há para ser aproveitado: amor, sorrisos, olhares, paladares, e dentro de cada uma dessas sensações há quilómetros de beleza à espera de corpos e mentalidades capazes de a alcançar. Cada passo na perfeição é uma batalha ganha para ser conseguido o simples toque da vida.


palavras duras como pedras que furam e arrancam pontos à cara de um sem-abrigo. a jarra verde, que estava pousada na mesa condecorada por ele, está agora deitada no chão, divida entre si mesma, entre o esquerdo e o direito, não sabe se sim ou se não. quer muito decidir, mas, quando olha para aquele abajur rasgado por vozes grossas e duras, sente-se confortado com aquilo que é, obriga-se a aprender a esperar, a deixar que o vento ande por si mesmo, que a luz se guie a si própria e que os mares, como dizem nas histórias de encantar, não têm fim. quando alguém chega, a esperança de ser salva cresce, cresce até ao ponto de se conseguir levantar e arrancar palavras assustadas desses que pensam ser os reis do mundo. quer muito ser como eles, gostava de conseguir falar mesmo quando assustada, mas de que nos serve querer ser como os outros se sempre vamos ser como nós? assustados.
apetece-me beber uma garrafa de céu e voar por entre os ramos da relva, esses que se apoderam do sabor verde da vida. apetece-me varrer todos os pontos finais, engolir todos os suspiros, correr atrás de caras feias, sonhar com o vôo que ganhei no outro dia, agarrar bolas anti-stress e fazê-las explodir; apetece-me tanto voar, subir alto, descer baixo e seguir sempre na diagonal direita, nessa que, sem saber, é a mais importante, a que me conta mais segredos todas as manhãs, a que me deixa sorrir ou chorar o tempo que eu quiser ou precisar. emoções fazem bem, voar faz bem, voar faz mesmo mesmo bem. queria tanto ir para longe hoje, para longe do chão e da terra. um dia ...

sorrisos espelhados no chão por onde pés descalços passaram. um sorriso transporta tanta energia e tanto alento, deixa-te levar por ele que acabas num rio de lágrimas alegres, numa chama quente e dilacerosa, numa cama sugada por ti mesmo. deixa que a maré te leve, que os sons te transportem para o seu mundo e, assim, vais conseguir nunca atingir a palavra dúvida; porque dúvidas é o que queres longe agora. bem perto só queres mesmo o calor amigo ou as palavras que ficaram por dizer, aquelas em que pensaste mas decidiste guardar só para ti, só para aqueles que te acompanham nas pontas dos dedos, aqueles que sorriem desde da cabeça aos pés. deixa-te levar pela acriançada música e sorri.

são como sombras que invadem casas destroçadas por vozes inequietas; todos os pontos finais se converteram em exclamações e todas as exclamações ficam à porta, sem entrada prevista. não tentes correr, o tempo resolve tudo, prometo. prometo conseguir devolver-te a Vida e fazer com tudo torne a ter rosas no final, fazer com que a estrada seja mais curta e que os passageiros sejam corajosos, tenham bravura ao seu lado e consigam lutar pelas cores e sabores por que tanto anseias. prometo cantar-te a tua música favorita e cozinhar-te os pratos que mais gostas. deixa-me só abrir a porta e sussurrar as palavras que nos distinguem. se sabes que os teus dedos conseguem escrever longas e belas baladas porque tens medo? tenta fazer com que um sorriso teu faça milhares de vozes falarem. sei que tudo pode ter um fim, que as histórias podem ser negras e que os teus reflexos podem transformar-se em frases inacabadas, mas porque não arriscar? a vida é isso, arriscar.

Se pudesse roubava todas as rosas do mundo. Pintava o céu de verde e o alcatrão virava amarelo. Era ridículo, verdade, mas era pintado por mim. Era eu quem governava o mundo das cores que tanto amo e faço por tornar repetitivo. Dava ainda mais para poder trazer a brisa marinha segundo sim, segundo não. Se quisesse chegar a um lugar, tinha de passar por cima da relva amarela e sempre que voasse tocava no céu verde. Um sonho foi assim, agora vou tratar de arranjar os pincéis e os doces e humildes guaches (...).

Essa casa existe. Passei por ela e logo percebi o significado da palavra energia. O pó tem energia, é ele que aquece a madeira fria, o soalho gelado e os painéis de solidão. Essa casa foi construída para eles - os encarnados rostos que pisam a areia esfomeada. Os copos pousados na velha mesa demonstram os sentimentos já maduros que por ali passaram. Nas botas arroxeadas vi sorrisos, neve e rebuscadas palavras que embelezaram a divisão amorosa do coração. Senti um arrepio que desceu as costas e que quand chegou aos pés me obrigou a dar um passo até ao passado e a recordar as sementes que colhi.

Jogam aos pares, acarinham-se umas às outras e jogam da mesma maneira, sempre de mãos dadas e sorrisos deixados. O caminho delas, por muito simples que pareça, é longo, muito muito longo. Mas nós, pessoas, não lhes damos o devido valor, preferimos enxota-las, deitá-las ao chão, sacudi-las do ombro e, por vezes, ainda dizemos que as odiamos. Se encararmos a realidade, vemos de quão longe vêm e o tanto que percorrem, o tanto que merecem ser ouvidas e observadas.
Por momentos, deixei-me embalar pela sua linguagem e forma de andar e acabei por me envolver nos seus passos, nas suas cores, na sua cumplicidade e companheirismo. Uma percorre um caminho, outra um diferente, mas quando se encontram, unem-se para correr em uníssono. Adquirem a cor do céu, o cheiro da lua, o andar de um pássaro e o som do vento. Se pudesse, agora, corria a seu lado e mergulhava com elas nesse mundo de comodidades e formas nunca antes experimentadas. Quando puder irei fazê-lo de novo, prometo.
Numa rua onde param o branco e o azul, à minha janela vejo um excessivo vermelho. Vejo-o nos lábios, nos anúncios, nas paredes e até mesmo, ali no fundo, naqueles sapatos. Consigo caracterizar cada tom desta cor. É garrida, forte, dolorosa ao toque e suave ao olhar. Não peço, juro que não peço mais nada senão poder tocar-lhe, sentir a sua dor, a sua chama, a sua robustez. É engraçada a forma como passa do rosado para o vermelhão - são as emoções, essas que trabalham dia e noite para se fazerem notar. Uma vez, uma disse-me ser a rainha de todas as outras. Julguei estar mentindo, até ao momento em que a senti dentro de mim, estava vermelha; cantava tão alto que acordou, dentro do castelo das sensações, o azul, o amarelo, o laranja, todos os tons fáceis de ouvir. Cada um de nós tenta agarrar a sensibilidade que mais lhe apetece, e apesar dessa rua ser branca e azul, eu pintei-a de vermelho. Quando chover, abraçar-me-ei aos meus olhos e pintarei de novo.
Nunca as tinha sentido voar na minha barriga, essas que têm brilho nas asas, rosas na boca e sonhos nas patas. Para elas não existe céu, não há um limite e, por agora, as suas asas batem incondicionalmente. Se um dia cessarem, juro correr até ao fim do mundo para recuperar e ressuscitar a sua pura beleza, o seu sorriso colorido e irei mergulhar de novo nesta casa que as pedras do rio construíram e onde a energia, a saudade e a consciente inconsciência duram. Agora, espalho a minha confiança sobre as folhas que nunca deitadas irão ficar, que corrompem todas as leis da natureza e se erguem por si mesmas até um labirinto ser formado dentro de mim. Esta borboleta não é rigorosa, é livre, louca e irracional, porque é disso que ele se trata.
«As chamas trinco, no gelo ardido, são formas muitas de te amar.»

another day, just believe, just breathe

disse um sim que durará para sempre e que, mesmo oculto, estará pendurado nas folhas que mandei trazer de Itália. as jarras, a cadeira onde te sentaste, o espelho que se partiu, tudo isso são pormenores ao lado das rosas que trinquei e dos ossos que vendi por ti, para puder tratar-me por mais um segundo. sinto que é doença o que trago, que não tenho as ferramentas necessárias para mandar construir o sonho dilacerado por cobras e lagartos despidos de vergonha. se me deixares apontar mais dois pontos nessa mão delicada prometo cantar-te as mais suaves canções e gritar-te as palavras mais fortes e seguras.

minha criança

Um tapete colorido, invadido por traços de emoções que se resumem à inconsciência tocada de duas crianças. Emerge uma cor de cada vez, sem serem criados padrões ou caminhos. Um beijo e um abraço chegam, uma história encantada ou uma simples música de embalar. A sensação toma um atalho acolhedor e um ingénuo arco-íris origina milhares de sorrisos simples mas sentidos. Os sons resumem-se a palavras geradas por emoções vivas, inicialmente retraídas, que lhes tomam conta do corpo e do coração e que transformam toda a seriedade exigida pelo mundo em doces lágrimas bêbedas de alegria. É bom poder sentir essa “felicidade inconsciente”, uma felicidade espontânea e incondicional, que aparece quando menos esperamos e nos tornam pessoas mais preenchidas.